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Ovos de Páscoa: O Verdadeiro Legado das Tradições Ancestrais

Com esse artigo, venho honrar o legado deixado por nossos ancestrais e relembrar a sacralidade das tradições do ovo de páscoa ao longo da história, incentivando uma infância mais livre da necessidade de consumo de chocolate com preços abusivos nessa época.

Ao trazermos a memória dessas tradições à luz, também lembramos da importância de colocarmos nossas intenções de renovação, recomeço e renascimento para um novo ciclo, permitindo nos transformar e nos desprender do que não nos serve mais – colorir e pintar um ovo colocando nossas intenções tem o mesmo poder de um objeto imantado: é arte, é magia, é vida!

O ovo é considerado uma das mais perfeitas formas naturais. Em diferentes culturas simboliza o começo de tudo, o início do universo. Os sacerdotes Druidas escolheram o ovo como símbolo de suas crenças. Outra corrente acredita que o ovo é símbolo pascal inspirado no costume chinês de colorir ovos de pata, para celebrar a vida que dele se origina.

Ovos também eram cozidos e comidos durante os festivais do antigo Egito, Pérsia, Grécia e Roma, além de serem presenteados em homenagem à chegada da florida primavera, depois de um inverno branco no hemisfério norte. Estas culturas tinham o ovo como emblema do universo, a palavra da suprema divindade, o princípio da vida.

Lembrando dos antigos povos pagãos europeus, que nesta época do ano homenageavam Ostara ou Eostre – Deusa da Primavera – que segura ovos em suas mãos e observa um coelho, símbolo de fertilidade. A deusa em si e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Os ovos eram pintados com símbolos mágicos ou de ouro por representarem essa fertilidade, sendo enterrados ou lançados ao fogo como oferta aos deuses. Eram a representação do ovo cósmico da vida, a fertilidade da Mãe Terra.

Muitas são as tradições e crenças, com variações dependendo da cultura. Crianças tchecas, por exemplo, acreditam que uma cotovia as traga presentes na Páscoa; as suíças e as alemãs contam com o galo ou a cegonha. Já no Brasil, a tradição do coelho e dos ovos de páscoa data do início do século XX, trazida pelos imigrantes suíços e alemães. Algumas tradições ainda tem o costume de colocarem dentro dos ovos pintados amendoins e sementes caramelizadas – presente que recebi muitas vezes na infância e que fazia parte das celebrações de meus ancestrais alemães.

O ovo de Páscoa é um emaranhado de combinações de tradições cristãs, judaicas e pagãs. Os ovos pintados e coloridos eram distribuídos entre as pessoas em alguns povos do hemisfério norte para comemorar a passagem do inverno para a primavera. Esse costume antigo encontrou-se com o rito de morte e ressurreição de Jesus Cristo que, por sua vez, aconteceu na Páscoa Judaica (Pessach), outra comemoração com o mesmo sentido de passagem e libertação para um novo ciclo.

Artista Sorábia (Povo Eslavo) pintando ovos

Os ovos passaram a ser feitos de madeira, argila ou com ouro. Até que, com a revolução industrial e o surgimento de uma boa oportunidade de negócios, a indústria do chocolate passou a fabricar ovos. Cada vez mais atraentes, decorados com papéis multicoloridos e recheados com surpresas tentadoras.

Longe dos princípios tradicionais da Páscoa, o chocolate atende a demanda das indústrias, mas não tem ligação direta com os significados milenares das tradições pascais. A comunicação publicitária então investiu na fantasia da fábrica misteriosa do coelhinho, assim como a fábrica misteriosa do bom velhinho, para gerar impulsos de consumo, em especial nas crianças. Hoje, já existem ovos de Páscoa que, vazios de nutrientes, são vendidos cheios de brinquedos, numa incoerente cultura para o significado real dessa época.

Mas, não se desespere, não é preciso acabar com as fantasias infantis, o delicioso sabor do chocolate ou as tradições de doar e receber para celebrar uma Páscoa sem consumismo. Estas são algumas alternativas para fazer uma Páscoa cheia de sentido e respeito, um verdadeiro rito de passagem:

– Faça com as crianças receitas caseiras de chocolate, biscoitos ou bolos, e distribua para seus amigos e familiares;

– Pinte ovos de galinha invocando as tradições originais e ancestrais;

– Use a história da Galinha Ruiva para ilustrar o plantio, colheita e moenda do trigo, e finalize assando um belo pão para compartilhar com a família, como fez Jesus Cristo;

– Prefira comprar ovos de chocolate – caso não consiga resistir à tentação – de produtores locais, doceiras e artesãos. Assim, o dinheiro circula e chega às mãos das pessoas reais, de carne e osso, não apenas aos cofres das grandes corporações.

TINGIMENTO NATURAL

Existem receitas diferentes na internet para o método de pintura. Uma delas sugere que a base da receita de tintura natural seja feita com: 1 colher de sopa de sal + 1 colher de sopa de vinagre + 3 xícaras de água. Misture os ingredientes e acrescente aquele que vai promover a coloração.

Para tingir os ovos é importante que o recipiente com a tintura possibilite a imersão do ovo. Ele precisa ser cozido anteriormente, para não trincar a casca; coloque um pano no fundo da panela e adicione um pouco de vinagre na água.

O tingimento trata-se de uma experiência prazerosa. A cada ovo você obterá um novo resultado. Testando a quantidade do ingrediente utilizado como corante e o tempo de imersão na tintura, você vai percebendo o tom desejado.

Além das tinturas sugeridas na imagem, você também pode optar por aquelas derivadas de ervas e outras plantas para dar uma tonalidade mais forte, incluindo especiarias. Incluem-se: marcela, cúrcuma, mostarda em pó, canela em pó, urucum, espinafre, couve, salsa.

Que possamos, então, relembrar dos costumes, tradições e sabedorias ancestrais não para que fiquemos presos a eles, mas para que através deles saibamos reconhecer também nossas mortes e renascimentos, nossos ciclos de vida-morte-vida, assim como nos antigos ritos de passagem. Namaste!

Fonte complementar: Wikipedia, fontes históricas e informações do perfil “Infância Livre de Consumismo”.

Por Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

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A Entrega com Presença, a Espera com Prontidão

“No processo de entrega ao longo da jornada, moldados que somos pelos ciclos de morte e renascimento, precisaremos passar por três etapas: a conclusão, a aceitação e o desprendimento. Essa entrega nos exige ao mesmo tempo a totalidade e a presença. Junto dela vem a espera, mas uma espera ativa, que nos coloca em pé e à ordem, sempre prontos para receber algo novo e perceber os próximos passos.

A primeira etapa envolve concluirmos os ajustes e as pendências que planejamos nesta vida, pré-determinadas pelos trilhos da consciência e do destino, ações no recolhimento que nos mantêm no eixo de equilíbrio do ser.

A segunda envolve aceitarmos tudo o que vier para nós no período, tudo o que tivermos que experienciar, seja harmônico ou desarmônico, mas que envolva aprendizado, crescimento, desenvolvimento humano e evolução para nossa alma. Essa aceitação significa nos alegrarmos com a vida todos os dias, sermos gratos pelo que somos e pelo que temos, pela vida que recebemos e por aqui estarmos desempenhando o nosso propósito. E isso não se trata de felicidade, ser feliz aqui é relativo porque a fórmula da felicidade pode ser diferente para cada um. Trata-se de alegrar-se e ser grato, apenas.

A terceira envolve fazermos as pazes com o nosso passado, com tudo aquilo que porventura ficou mal resolvido por nós e dentro de nós, para assim podermos nos desprender dele com amor e compaixão, com o senso de tarefa cumprida perante os que por nós passaram e pelo que vivemos. Nos desprendermos também daquilo que não podemos mudar, do que não nos diz respeito, que não nos pertence, que não está sob a nossa responsabilidade e o nosso controle. Incluem-se os padrões e as crenças limitadoras, as peles e as carapaças antigas, as máscaras sociais e pessoais que já não servem mais para o agora. Significa nos reinventarmos, renascermos de dentro de nós: abraçarmos o nascimento de um novo eu a partir da morte de um antigo, uma velha e inutilizável identidade.

No ínterim desse processo, que está além do tempo humano – muitas vezes fora dele e dentro do tempo da alma – vamos experienciar momentos de desalento e de certa opressão, de silêncio e solitude, com sensação de angústia e lentidão, como se nada estivesse acontecendo. Contudo, basta nessa hora lembrarmos do bambu, do tempo que ele leva enraizando nas profundezas da terra até que se possa ver seus troncos nascendo em direção ao sol – e lá se vão de quatro a cinco anos para o bambu começar a admirar os primeiros raios do astro rei.

Em meio a esta espera preciosa, lembremos que existe uma energia estrutural, uma base que estrutura todo esse processo e que pode ser comparada às raízes de um bambu: a energia da criação. O ato de criar é uma ação que acontece em três tempos simultaneamente. É um ato multidimensional: está no passado, no presente e no futuro, por essa razão está além do tempo humano e ainda assim dentro dele. Um quadro pintado por Da Vinci, por exemplo, foi criado no passado mas permanece sendo lembrado no presente, e seguirá existindo no futuro pelo significado histórico, simbólico e artístico que deixou à humanidade. Afinal, o que foi criado não pode ser desfeito, está registrado nos trilhos do tempo, até mesmo um antigo pergaminho da biblioteca de Alexandria destruído durante a Idade Média.

Quando criamos através da conexão com a alma, colocando amor, alegria e prazer no que fazemos, seja por meio de dons e talentos natos – onde o ato criativo começa a despertar – seja através de uma ação que incentiva a nossa criatividade, nos posicionamos dentro de uma correnteza fluída, forte e multicolorida, representada pelos ciclos universais da criação, uma força que nos convida a seguir e confiar. Através dessa força, nos sintonizamos com as infinitas possibilidades existentes nesse ato criativo, o que nos permite entrar num espaço de paz profunda, de foco e concentração, no aqui e no agora, no fluxo da espera com prontidão. Permitimos, assim, que a mente seja canal e ferramenta para materializar as nossas criações, à semelhança da união das palavras desse texto ou de uma paleta de cores que compõem uma tela, uma arte.

Durante essas etapas, o corpo relaxa, a mente se rende, o espírito acolhe e o emocional se integra como uma gota de água no oceano, e assim seguimos aprendendo e estabilizando. Muitos tem medo e fogem desse processo de entrega e espera porque acreditam que ele é somente morte, vazio e solidão. De fato, eles fazem parte dele: a morte, o vazio e a solitude, mas também a vida, a criação e a plenitude. Essa plenitude é alcançada e sentida pelo próprio ato de criar, que acontece de forma fluída, sem esforço, assim como ligar o ‘piloto automático da alma’.

A entrega com prontidão é viver o agora, é criar e renascer após as inúmeras mortes no caminho, sempre prontos à espera do próximo passo, entregues a tudo o que o universo nos traz porque nos alegramos com a vida. Essa é uma ação no recolhimento, é o ócio criativo, é a felicidade como um estado do ser. Essa entrega total nos liberta, nos fortalece, nos estabiliza para que possamos seguir cada vez mais conscientes, mais leves, criativos e sábios.

Alegrar-se todos dos dias com a vida é uma prática não mental, é um estado, é Ser. Ser além do que é rotulado como felicidade, encontrando o próprio ritmo, aceitando todas as emoções que precisam vir à tona, honrando nossas luzes e sombras, defeitos e qualidades, erros e acertos, porque de tudo isso somos feitos. É uma forma de nos entregarmos à nossa totalidade. Ao final, é olhar para este todo e poder dizer com humildade e simplicidade: ‘Nossa, quanto evolui!’ Esse estado do ser é uma conquista. E isso só conseguimos porque nos entregamos aos desígnios da alma, a um fluxo que não é governado pela mente, ouvindo a intuição e a voz do coração, permitindo que o ego adormeça para que a alma acorde.”

Mensagem de ©YEHUÁ  – Por Luciane Strähuber

Artigos, Sustentabilidade Ambiental e Educação, Terapias Integrativas

Um Avanço: Espiritualidade é disciplina na Faculdade de Medicina

“A espiritualidade não pode reduzir-se a mais uma terapia que os médicos podem receitar, da mesma maneira, por exemplo, que receitam antibióticos para uma infecção. A espiritualidade e a oração tem sentido em si mesmas e por si mesmas. Não são meros meios para melhorar a saúde; Nem a oração necessita ser justificada pela medicina, nem a medicina pela religião. Ambas são atividades genuínas e valiosas que se justificam a si mesmas, em sua própria esfera (…) Pessoas são seres bio-psico-sociais-espirituais, que se realizam na comunidade de pessoas e na comunidade dos povos do mundo.” (J. Ferrer)*

Essa notícia vem trazendo a confirmação de uma necessidade crescente: tratar o ser humano de forma integral. A busca pela união da medicina com a espiritualidade data de milênios, se levarmos nosso olhar através da história da humanidade por diferentes povos e tradições. Contudo, ainda vivemos cenários mercadológicos conflituosos, cujo interesse é o de mantê-las separadas – muito embora não estejam de fato.

Com o avanço das tecnologias, fomos esquecendo do essencial, de que somos seres multifacetados, multidimensionais. E agora, no pico da revolução tecnológica, vemos essa busca voltando com mais força porque ela prevê novamente uma ação de inclusão, de integração, de reconexão com o Ser e com a necessidade do pertencer e partilhar. Qual seria a razão de nossa existência e propósito se não pudéssemos compartilhar o que temos de melhor, o que nossa alma veio oferecer enquanto dons e talentos?

De um ponto de vista terapêutico, vejo que as tecnologias são capazes de gerar inclusão se somos capazes de torná-las ferramentas para unir e gerar colaboração, sem que nos tornemos dependentes delas. As dicas de seo positivo, as estratégias de marketing e os inúmeros  cursos de coaching no mercado ensinam tudo para ser o top, um influenciador nas mídias sociais, estar no topo do ranking do Google ou ter uma página com milhares de visitas e likes. Mas, em meio a isso, o essencial está ficando para trás e muitos estão se vendo depressivos, isolados pelas redes sociais e pelos aplicativos de relacionamento porque tudo gira em torno de um like, do ser reconhecido e ser aceito, como se as emoções pudessem ser rotuladas ou determinadas apenas por “curtir” ou “não curtir”.

Algumas faculdades das áreas da saúde no Brasil já possuem iniciativas que contemplam essa união. Em São Paulo, na faculdade de medicina de Taubaté, a disciplina de Medicina e Espiritualidade deixou de ser optativa para oficialmente fazer parte do currículo. Num comparativo a outros países, ainda estamos engatinhando para chegar a um ponto de equilíbrio entre ciência e espiritualidade, vivendo numa sociedade ainda mais competitiva do que igualitária, mais focada no ter e parecer do que no ser.

Contudo, através de um olhar otimista, se sairmos um pouco do meio acadêmico-científico e olharmos os vários pequenos grupos, podemos ver iniciativas louváveis acontecendo por parte de pessoas comuns – a força da colaboração e da união sendo construídas para criar algo novo, algo que vá de encontro a esse objetivo, seja em sua própria comunidade, em seu bairro, em sua cidade ou mesmo em sua casa ou ambiente de trabalho.

Médicos em oração antes de cirurgia

Exemplo disso estão sendo: o aumento das práticas de meditação nas escolas, hospitais cada vez mais preocupados em cuidar do cuidador, a fim de estender este equilíbrio aos seus pacientes – principalmente no que se refere aos núcleos de pacientes com câncer; universidades em parceria às faculdades da área da saúde que promovem painéis e encontros sobre o tema; notícias sobre médicos que incluem em seus tratamentos alimentos orgânicos, medicina ortomolecular, medicina oriental e terapias complementares para incentivar a melhoria da saúde geral e também promover a redução de medicação alopática.

Além disso, vemos a procura cada vez maior pelas práticas integrativas e complementares no Sistema Único de Saúde (SUS) do nosso país – Leia mais: Práticas Integrativas: Cresce 46% a procura no SUS – e ainda ações para resgatar a sabedoria de cura da medicina natural e integrá-la novamente à nossa rotina. Todo esse movimento vai além de religião, de crenças ou de panacéia popular, trata-se de resgatar uma parte esquecida de nós: o Ser. Sem o Ser, sem o que é essencial, estamos desconectados da alma, centralizados apenas no Eu, e assim distantes da espiritualidade que nos rege.

Enfim, fazendo a nossa parte de forma consciente, com responsabilidade e comprometimento, mesmo que seja um pequeno passo, já temos um bom começo. Ainda que o tradicionalismo das faculdades de medicina perdure por essas paragens do Sul, aos poucos estamos presenciando avanços importantes fazendo jus à essa união, a exemplo de instituições como a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o Hospital Divina Providência da capital gaúcha. Esforços provindos de outras universidades e faculdades de saúde como enfermagem, fisioterapia, farmácia, veterinária, psicologia, entre outras, também são destaque. Um pequeno passo em direção a mudança é um grande passo em direção ao progresso!

José G. Ribeiro – Professor da Faculdade de Medicina da UFF (Foto: O Globo)

Mais informações sobre a notícia na UFF/ Rio de Janeiro – Artigo de Luiza Fletcher – 07/02/2019

“Todos já ouvimos falar, pelo menos uma vez, que os estados emocional e espiritual influenciam diretamente no tipo de vida que levamos, e apesar das opiniões acerca desse assunto serem controversas, a Medicina resolveu apoiar essa crença. Aspectos importantes para viver plenamente englobam aprender a cuidar do interior, perdoar, liberar sentimentos e pensamentos negativos e despertar a consciência. Essas práticas estão diretamente relacionadas ao entendimento espiritual.

Com o apoio desses conceitos, uma nova disciplina optativa foi introduzida no currículo da faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro: Medicina e Espiritualidade. “Na Europa e nos Estados Unidos, cerca de 80% das faculdades já têm essa cadeira no currículo. No Brasil, ainda estamos devagar”, diz José Genilson Ribeiro, coordenador da disciplina na universidade.

Também explica como funciona o ensino: “Acreditamos que a doença começa na alma, instala-se no corpo físico, e que é preciso tratar o paciente de maneira integral. Não basta tratar o efeito da doença, mas os aspectos totais. Muitas pessoas têm mágoas e não conseguem perdoar. Isso as deixam presas em suas dores, o que dificulta a melhora física”, assegura.

Os professores que lecionam Medicina e Espiritualidade são guiados pela ideia de “medicina integrativa”, seguindo a proposta da Carta de Ottawa, de 1986, que tem o objetivo de contribuir com as políticas de saúde em todos os países de maneira igualitária. De acordo com o documento, a verdadeira saúde é uma consequência do bem-estar físico, psicológico, familiar, social e espiritual.

Um ponto muito importante disso tudo é que os alunos têm a oportunidade de aplicar os conhecimentos sobre a disciplina fora das salas de aula. Eles podem atender pacientes gratuitamente pelo Núcleo de Estudos em Saúde, Medicina e Espiritualidade (Nesme) da UFF, local de trabalho de profissionais de medicina, psicologia e arteterapia.

Carlos Roberto Figueiredo, um estudante da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e fundador da Liame – Liga Acadêmica de Medicina e Espiritualidade, fala um pouco sobre o ensino da espiritualidade: “Criamos a Liame em 2014, com base no aumento do interesse acadêmico-científico pelo tema de saúde e espiritualidade. Em 1998, foi proposta pela OMS a inclusão da dimensão espiritual do ser à sua definição de saúde, convidando-nos a repensar o paradigma científico frente ao diálogo com o sentido espiritual da vida.”

Carmita Abdo, psiquiatra, diretora da Associação Médica Brasileira (AMB) e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), diz que o ponto de vista da disciplina é comprovado e contextualiza sua opinião: “As emoções levam a modificações de substâncias no organismo. Quando liberamos ocitocina e endorfina, elas nos levam à melhora na imunidade e às sensações de bem-estar. O contrário ocorre com sensações negativas, que liberam substâncias que baixam a imunidade. Com o perdão não é diferente. Quando perdoamos alguém temos a sensação de alívio, de gratificação, o que é revertido em ocitocina”, diz.

Certamente, essa é uma matéria muito importante para a formação de médicos mais conectados aos seus pacientes, capazes de promover não apenas uma cura física, mas também auxiliá-los na busca por uma cura espiritual.”

Por Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

Fonte complementar: * Citação de Referência: Ferrer, J. Medicina y Espiritualidad: redescubriendo uma antigua alianza. In: Bioética: um diálogo Plural (Homenaje a Javier Gafo Fernández). Madrid: Ed. Univ. Pontificia Camillas, 2002./ * Resenha completa da Citação: Jennifer Braathen Salgueiro, PhD (GPPG/ Hospital de Clínicas de Porto Alegre/RS) – Bioética e Espiritualidade: https://www.ufrgs.br/bioetica/ferrer.htm

Artigos, Terapias Integrativas

Práticas Integrativas e Complementares em Saúde: Cresce 46% a procura no SUS

Segundo dados do Ministério da Saúde no Brasil, o número de atividades coletivas como yoga e tai chi chuan aumentou nos últimos dois anos, passando de 216 mil para 315 mil, entre 2017 e 2018. São 29 práticas integrativas disponíveis no SUS até o momento.

O uso das Práticas Integrativas no Sistema Único de Saúde (SUS) vem crescendo a cada ano, como complemento de tratamentos em saúde. Nas atividades coletivas como yoga e tai chi chuan, o crescimento foi de 46%. Passou de 216 mil para 315 mil, entre 2017 e 2018. Por isso, o Ministério da Saúde, a partir da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, passou a ofertar um rol de 29 dessas práticas.

A quantidade de procedimentos relacionados a essas práticas – como uma sessão individual de auriculoterapia ou uma sessão de atividade coletiva – registrada nos sistemas entre 2017 e 2018 mais que dobrou, passando de 157 mil para 355 mil, um aumento de mais de 126%. O reflexo desse aumento também pode ser visto no quantitativo de participantes nessas atividades, que cresceu 36%. Passou de 4,9 milhões de participantes para 6,67 milhões no período.

Quando o SUS começou a implementar a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em 2006, eram apenas cinco práticas disponíveis à população: medicina tradicional chinesa/acupuntura, homeopatia, medicina antroposófica, termalismo e fitoterapia. Atualmente esse rol conta com 29 práticas. Na última incorporação, o Ministério da Saúde adotou mais 14 práticas. Entre elas biodança, dança circular, musicoterapia, reiki, shantala, quiropraxia, yoga, entre outras.

Centro de Saúde em Brasília – DF

RECONHECIMENTO 

As Práticas Integrativas e Complementares – PICS, como são chamadas no Brasil, são reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os documentos da OMS orientam os países a adoção dessas práticas nos seus sistemas nacionais de saúde. No Brasil, elas foram reconhecidas e tiveram a ampliação solicitada no SUS em diversas Conferências Nacionais de Saúde, maior espaço representativo de gestores, trabalhadores, profissionais e usuários. Diversos conselhos profissionais de saúde reconhecem e orientam o uso ético por seus profissionais. Incluem-se os conselhos de enfermagem, odontologia, fisioterapia, farmácia, agronomia, veterinária, entre outros.

A indicação desse tratamento complementar ocorre no âmbito da Atenção Básica, nas Unidades Básicas de Saúde do SUS e também no atendimento especializado, nas unidades hospitalares e centros especializados. Além de ampliar a diversidade da oferta, o número de estabelecimentos que atuam nessa linha também deram um salto de 13%. Passaram de 22.164 em 2017 para 25.197 estabelecimentos em 2018.

Os atendimentos podem ser individuais, quando realizados por profissionais de saúde com formação superior que utilizam as práticas como complemento ao tratamento. Dependendo do tipo de procedimento, as consultas também podem ser realizadas por profissionais capacitados de nível médio. A oferta dessas práticas não é obrigatória pelos municípios, uma vez que depende de profissionais capacitados para tal.

PESQUISA CIENTÍFICA

Diversas plataformas de estudos científicos como a Cochrane e o Pubmed publicam os benefícios das práticas integrativas como complemento das ações em saúde. Há estudos de revisões sistemáticas sobre o uso da meditação para redução de risco cardiovascular, por exemplo, e também para melhorar casos de depressão. Outras pesquisas mostram que as práticas complementam e trazem benefícios junto ao tratamento de câncer de mama. Revelam também o benefício da acupuntura na melhora da dor em casos de fibromialgia.

Para os interessados em aprofundar seu conhecimento e manter-se atualizado, os sites das principais universidades e faculdades na área da saúde também fornecem dados abertos de estudos científicos e teses que corroboram com os resultados positivos dessas práticas. Bibliotecas virtuais de institutos e associações ligadas à prática integrativa de interesse – homeopatia, por exemplo – são outra ferramenta de pesquisa que pode ser usada como alternativa.

Abaixo, sugiro os principais bancos de dados para a pesquisa científica. Neles, você encontra publicações nacionais e internacionais.

* Rede BiblioSus/ Biblioteca Virtual em Saúde/ MS / * Biblioteca Virtual em Saúde/ Brasil – Práticas Integrativas / * Portal Acadêmico – Práticas Integrativas em Saúde

* Bases de Dados Científicas: ColecionaSUS | Comunicação Científica em Saúde | LILACS | Revistas Científicas | MEDLINE |
SciELO – Livros | SciELO – Periódicos | SciELO – Brasil | SciELO – Saúde Pública | SciELO Livros – Fiocruz

Leia mais:

Meditação em movimento:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30071662
Clinical practice guidelines on the use of integrative therapies as supportive care in patients treated for breast cancer
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25749602
Meditation and Cardiovascular Risk Reduction
https://www.ahajournals.org/doi/full/10.1161/JAHA.117.002218
The Effectiveness of Aromatherapy for Depressive Symptoms: A Systematic Review
https://www.hindawi.com/journals/ecam/2017/5869315/?fbclid=IwAR1M4nAksDvhB9-NscRjRNvrCUE0c9gt1TbWtju7ZYykU96icJEYItZ2fJo
Acupuncture therapy for fibromyalgia: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30787631
Blood Pressure Response to Meditation and Yoga: A Systematic Review and Meta-Analysis
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28384004/

Por Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

Fonte Complementar: http://portalms.saude.gov.br

Artigos, Feminino Sagrado

Mulher-Medicina: Quem És?

QUEM É A MULHER-MEDICINA?

“Toda a “mulher-amor” é uma mulher-medicina.

Mulheres fortes que nutrem o coração 

daqueles que cruzam o seu caminho.

Que buscam construir as suas vidas 

em cima de solo firme e verdadeiro.

Que procuram a paz dentro e fora dos seus corações.

A mulher-medicina é aquela cuja energia é contagiante.

Vibra numa frequência empática, 

curadora, amorosa e sábia.

Transmite confiança e respeito.

Esta mulher sabe que os Deuses e a Deusa

a incumbiram de guardar e zelar

pela “caixa de pandora” que carrega no peito;

dentro dela um oceano de mistério e um dique…

às vezes frágil, sempre prestes a ser derrubado

pelas correntes de outras águas que não as suas.

Desde cedo sabe que veio ao mundo

com a missão de oferecer Amor à Humanidade.

Soube-o no dia em que olhou para o adulto

que cuidaria dela com compaixão.

Traz consigo uma energia transformadora

e uma aura extremamente magnética

que a ajuda a cumprir o seu propósito.

Estas mulheres são belas, são novas e são velhas.

Também têm dores, têm amores e horrores,

e sangram e choram.

O grande desafio da mulher-medicina

é amar-se, parir-se e curar-se.

Para isso, ela terá que colocar o compromisso com sua alma

à frente do compromisso de amor incondicional à Humanidade.

Felizmente, cada vez mais mulheres vão acordando a medicina do seu coração,

e colocam esta energia a serviço delas mesmas,

de Mãe Gaia e de todos os seres que com elas cruzam.

Dentro de todas as mulheres existe a medicina do coração:

Receptiva, nutridora, mas também guerreira,

que se sabe impor, dizer não a atitudes

que não respeitem a sua integridade.

Esta medicina dá-nos força e alento para reconhecer os nossos dons

e foco para atingirmos as nossas metas.”

Dedico este escrito a todas as mulheres-medicina! ❤

Mensagem de Rute Alegria

Artigos, Constelação Familiar, Feminino Sagrado, Livros Espiritualistas e Transcendentais, Terapias Integrativas

Abortos: Incluindo os Excluídos – Visões da Psicanálise e da Constelação Familiar

No trabalho das constelações familiares as crianças abortadas pertencem ao sistema familiar, mesmo que não tenham se desenvolvido plenamente até o nascimento ou que tenham existido por um pequeno período de tempo. Apenas o fato de terem existido na família configura a necessidade de fazerem parte do sistema, e por isso precisam ser incluídas para que haja ordem e equilíbrio.

Nesse sentido, não importa se o aborto foi espontâneo, se foi provocado ou se houve a decisão consciente de fazê-lo. Segundo os preceitos da constelação sistêmica, uma lei natural – a Lei do Pertencimento – não faz julgamento moral. O pertencimento ocorre desde a fecundação e não apenas pelo nascimento, como a maior parte das pessoas pensa.

Levo o olhar um pouco mais adiante, observando também a conexão da alma dessa criança com os pais, que ocorre muitas vezes anos antes do nascimento propriamente dito. Em atendimentos a casais e muitas mulheres que desejaram engravidar, acompanhei casos em que foi preciso trabalhar antes a harmonia da ligação do casal com a alma da criança – algumas delas nem vieram a nascer, mas por terem sido reconhecidas, voltaram para o seu lugar em paz. Após o período necessário de ajuste, de reconhecimento deste ser, foi possível para esses casais se sentirem em harmonia para que uma outra criança viesse depois, seja por meio de gravidez, de adoção ou fecundação in vitro.

Antes de terem consciência da necessidade de incluir a criança excluída – seja em relação a culpas ou compromissos de vidas passadas, seja por abortos advindos das ancestrais que foram escondidos, reprimidos, obrigados ou negados por tabus, crenças, ideologias e padrões da época – esses casais se sentiam “presos” de alguma forma, principalmente no que tange à mulher, com inúmeras tentativas fracassadas de gravidez.

Na constelação, há uma frase que diz: “Uma pessoa está em paz quando todas as pessoas que pertencem à sua família tem um lugar em seu coração.” Essa é aquela paz que mora no silêncio interior, que brota de dentro sem esforço porque ela simplesmente é em nós; é a força, a leveza e a fé que recebemos das nossas entranhas, das nossas raízes para seguir adiante, dar os próximos passos em direção às mudanças e ao progresso. E isso conseguimos quando estamos em nosso lugar na hierarquia familiar.

Essa criança que não nasceu, portanto, só precisa de um lugar na família: o seu lugar, para assim não ser uma “sobrecarga” aos filhos que vierem depois, uma vez que a tendência dos que vem depois é assumir o destino daquele que foi excluído quando esse ato de pertencer não ocorre por parte do casal. Quando a inclusão não acontece, há desequilíbrios no sistema familiar tanto para o casal quanto para os filhos que precedem. Nesse cenário, a ordem do pertencimento dos filhos também será afetada, à semelhança da base estrutural de um prédio, de uma progressão geométrica ou de uma cascata. Em todos esses exemplos, existe uma ordem que possibilita a criação de formas harmônicas.

Outras situações comuns que também estão dentro da lei do pertencimento e que precisam ser consideradas:

Gravidez tubária ou ectópica: quando o óvulo fecundado implanta-se de forma equivocada em outras estruturas que não o útero. A forma mais comum é a gravidez tubária, que ocorre dentro das trompas de Falópio. Em 98% dos casos, o ovo não percorre todo o caminho até o útero e acaba se alojando precocemente na parede de uma das trompas. Nos 2% restantes, a implantação do ovo ocorre em outras estruturas como ovário, colo do útero ou cavidade abdominal;

Gestação anembrionária ou “ovo cego“: quando um óvulo fertilizado se implanta no útero, mas o bebê não se desenvolve. Ao fazer uma ultrassonografia, no primeiro trimestre da gestação, o saco gestacional aparece vazio, sem embrião dentro. É o chamado “ovo cego”, que resulta em um aborto espontâneo;

Pílula do dia seguinte: método de emergência e não-preventivo. Pode ser usado para evitar gravidez após a relação sexual não segura. Apesar de ser interpretada como uma solução prática para evitar a gravidez indesejada, esse recurso é indicado apenas para casos emergenciais e deve ser usado com cuidado, já que traz efeitos colaterais a curto e longo prazo. Conheci mulheres que engravidaram com a pílula do dia seguinte principalmente porque abusaram do seu uso, desregulando assim seus ciclos e período fértil;

Fecundação em vitro com congelamento de embriões. Esses embriões congelados também pertencem.

Observa-se que quando a fecundação acontece, mesmo que não tenha sequência na completude do processo, ela está dentro da lei do pertencimento. Nas constelações familiares olha-se com muito respeito para todos esses casos, sem qualquer tipo de julgamento, cuja base para uma solução possível é dar a essas crianças um lugar no coração. “O amor preenche o que a ordem abarca. O amor é a água, a ordem é o jarro. A ordem ajunta, o amor flui. Ordem e Amor atuam juntos.”

MAMÃE, VOCÊ ME ACEITA COMO EU SOU?

Transcrevo o trecho maravilhoso do livro de Barbara Joose sobre o tema, palavras que representam profundamente a voz dos excluídos, gerando reflexões importantes acerca de como a negação da existência dessas crianças afeta todo o sistema familiar e as futuras gerações:

O tema sobre o qual faço esta reflexão é difícil e polêmico. Coisas de se abrir ao coração para não deixa-lo quebrar…Quando eu entrava, e entro em contato, numa constelação familiar, com as reações dos abortos provocados, uma frase emperrava em minha garganta. Não consegui traduzi-la até poucas semanas atrás: – Mamãe, você me aceita (como eu sou)?

Como na constelação fica evidente que tudo o que foi criado não perde sua existência, aquilo que chamamos de óvulo fecundado (na barriga ou congelado), feto, embrião de uma semana, existe como entidade total para alma familiar e não precisa da legitimidade social para ter este direito, mas para ter seu lugar. Esta frase, então, “mamãe, você me aceita (como eu sou)?” estava na garganta da mãe que aborta, da criança abortada, dos irmãos dela e do pai da criança abortada. Todos perguntam à sua própria mãe se ela concorda com sua existência.

A pergunta neles parece que fica assim:

Mãe que aborta à sua mãe: “Mamãe, você me aceita? Como filha, mulher, esposa, filha do meu pai, mãe dos meus filhos? Dona dos meus atos, etc…?”

Pai da criança abortada à sua mãe: “Mamãe, você me aceita? Como filho, homem, pai, filho do meu pai, etc…?”

Irmãos da(s) criança(s) abortada(s): “Mamãe, você me aceita? Como filho, mesmo tendo tirado outro? O amor que tenho por você, independente do que faz? Como irmão do meu irmão morto? Como teu filho que tem o irmão morto no coração, etc…?”

Criança abortada: “Mamãe, você me aceita? Mesmo que tenha me tirado? Com todo seu sentimento de culpa, eu mereço seu olhar, seu amor, minha inclusão, etc…?”

Esta percepção me levou àquele bolo na garganta, muitas vezes o “globo histérico” – somatização da chamada neurose histérica. Será que nele estão tingidas as cores emocionais e as implicações desta pergunta à mãe? O que este bolo indigesto tem a ver com o movimento interrompido em direção à mãe? Qual a solução? (Um grande soluço).

Fui fazer um pequeníssimo resumo da trajetória da histeria, seus sintomas e hipóteses de sua etiologia por meio de um livro ótimo* – coloco ao final deste texto para quem quiser ler. Minha intenção era entender um pouco desta tão famosa “doença” da alma com suas perturbações emocionais e paixões reprimidas, e relacioná-la com minhas percepções atávicas – se isso existe – dos efeitos do aborto provocado em um sistema familiar.

Nesta sinopse, destaquei a hýstera (útero, matriz), onde todos são gerados; o desejo sexual e de procriação sufocados que se transformam em sintomas físicos ‘pedindo ajuda’ (histeria); a investigação dos sintomas de angústia expandida aos homens, tanto como nas mulheres, causada pela repressão de seus desejos e paixões, e os anseios da alma; a relação corpo-mente recolocada em questão por meio desta “doença”, levando ao conceito de inconsciente pessoal (Freud), extrapolado ao inconsciente coletivo (Jung). Tudo isso desafiando qualquer negação da pluridimensionalidade humana. Ou seja, se a existência é multidimensional, não há só uma forma de abordá-la e uma só linguagem para entendê-la ou se fazer entender.

Quero dizer, assim, todos os anseios reprimidos – sem voz – pediriam legitimidade em sintomas na garganta? No sistema reprodutor? Na tireoide? Nos pulmões? No corpo, como na histeria? Buscariam campos de representação nas relações sexuais, nos encontros de amor? Nas relações pais e filhos? Nosso corpo e relações seriam o campo privilegiado para partes excluídas nossas (e de nossa família) se manifestarem por meio “doenças e curas”? É que a vida e o corpo multidimensional, suas dores e amores, são muito criativos ao se fazer notar quando não sabemos escutá-los.

E esta voz abafada, essas representações e sintomas pertencem a quem? Quem é a “dona” do útero ferido? Do desejo reprimido? Da angústia? Dos anseios da alma? Sou eu que tenho o sintoma ou também pertence a algum ancestral ou à alma familiar? O que se tem visto nos movimentos de alma durante a Constelação é que quando há um aborto provocado, mesmo que ele seja um segredo, o irmão nascido, o pai, a mãe e a criança abortada se sentem em conexão intensa, como se existisse de fato uma criança ali, porque existe. Não estou reafirmando a visão espírita, estou apenas sublinhando o que Hellinger já disse: o que foi criado não desaparece jamais.

“Por que ele/a não pôde vir? Por que foi abortado?” Não é, então, o essencial. O que a garganta fechada de todos os envolvidos quer dizer, sem dizer, é: “Você me aceita? Eu posso existir?”. Este bolo gutural ganha dimensão pujante nas irmãs vivas, que muitas vezes praticam o aborto, seguindo a sina familiar. Por conta disso, pode haver um bloqueio na relação com a mãe, e isso a impede de ir até ela criando um movimento interrompido em direção à mãe.

No caso, o/a filho/a não consegue ir à mãe por não se sentir aceito, mesmo que seja. “Se meu irmão não foi aceito, por que eu seria?” Aqui ele/a pode estar julgando a mãe, ou se identificado com o irmão morto, ou os dois. Esta dificuldade impossibilita que se tome a matriz. Esta situação gera no filho excluído pelo aborto mais um sofrimento: não bastou não vir, seu destino torna outros menos felizes. Por outro lado, a mãe também pode ser dura consigo mesma, e como forma de compensar sua responsabilidade e implicações do seu ato dificulta o caminho do seu filho até ela. Bem, não só o aborto pode endurecer um coração.

Voltando ao assunto, não sei se serei compreendida, mas em última análise e sem julgamentos, nenhum motivo justifica um aborto provocado. Mas os motivos existem, desde emaranhamentos familiares complicadíssimos até ilusões sobre o que se quer da vida. Então, será mesmo que o que levou a mulher a esta ação não a ajudaria a encarar seu filho morto nos olhos, coloca-lo no coração e retomar sua vida para algo bom, sem desejar a antiga inocência, mas com a carga do que fez ou teve que fazer?

Aquilo que te (me) fez abortar, busque! Ao menos assim, pode-se olhar para o/a filho/a morto neste ato dolorosíssimo e cheio de implicações, e saber que ele (o ato) não foi em vão para a mãe, nem para o filho. Dizer que é só um embrião, não ajuda em nada. Discutir quando a vida começa, também não dá conta das implicações do aborto na alma, além de desconsiderar o mundo dos mortos – local onde a existência mantém tudo o que já foi criado, mesmo um “embrião”.

E também desconsidera a mulher, o útero e o feminino, o que esta dimensão de cálice pode revelar além do racionalismo científico e dos dogmas religiosos. Como sou uma mulher e tenho útero, sei que teço meus filhos, obras, visões, deste mundo invisível e insondável. Há práticas xamânicas que se sustentam neste órgão e suas visões, por isso a repressão de sua sabedoria e não só de seus desejos pode sim virar histeria. Histeria coletiva! Não foi por isso que se queimaram as bruxas? Elas sabiam demais!

Que tudo isso não seja incentivo para se abortar, nem um peso maior do que já é para quando “não há escolha”. Que seja um estímulo para buscar o saber também pelo irracional e não só pela razão, para criar um mundo capaz de acolher o mistério, assim como aplaude a luz. Tanto para mãe, quanto para os envolvidos na família onde há aborto provocado, resta, quando chegar a hora – geralmente quando já não se aguenta mais tanta angústia, falta de ar (histeria?) – NÃO interromper ainda mais o movimento em direção à matriz. E ainda tem que se ultrapassar o medo e a raiva gerados por todos os bloqueios no caminho.

Sabe aquela raiva que se tem do/a parceiro/a sem nem saber o por quê? Pode ser a raiva de não ter conseguido chegar à mãe projetada nele/a. Ressalto isso porque, segundo Hellinger, “o movimento interrompido em direção à nossa mãe, bem como suas consequências, reflete-se igualmente em nossas relações de casal”, em nosso caminho profissional e em tantas outras empreitadas. No caso dos relacionamentos amorosos, por exemplo, “em vez de nos aproximar de nosso parceiro ou parceira, nos retiramos e esperamos que o outro venha ao nosso encontro (…)” Ele nos instrui, então, a prestar “atenção para identificar até que ponto o movimento interrompido em direção a nossa mãe se mostra de forma parecida, ou inclusive idêntica, à nossa relação de casal”

Mesmo que a mãe não possa amar como se gostaria por conta da culpa, por problemas ancestrais que a levaram a ser difícil, o/a filho/a deve agora ousar esta aproximação, ao menos interiormente. Mesmo que a mãe já esteja morta, ou tenha que se manter a uma distância saudável dela, tomar a mãe no coração transformaria o bolo na garganta chamado “mamãe, vc me aceita como eu sou?” em sua solução: “SIM, EU CONCORDO COM VOCÊ EXATAMENTE COMO É, MAMÃE! E agora eu a tomo e vou até você, interiormente, ultrapassando toda raiva e medo por tanta rejeição!”

Isso transbordaria para as relações e o mundo. Já não se quereria mais ser o que não se é para agradar ao pai, à mãe, aos professores, ao parceiro/a e aos outros. Já não se reprimiria mais os anseios da alma, seus desejos e as suas paixões para o mundo nos aceitar. Há algo em aceitar a mãe (e o pai) tal como é que faz crescer para além dos limites outrora repressores. Portanto, como diz Hellinger, as três palavras essenciais são: GRATIDÃO (pela vida recebida), SIM (eu concordo com você exatamente como é) e POR FAVOR (palavra mágica que se abre ao coração).

HISTERIA: UM PEQUENO RESUMO

Na Grécia antiga, a histeria que vem de hýstera e se traduz como matriz ou útero, segundo Hipócrates pode ser entendida como sintomas da repressão de um ser vivo dentro do corpo da mulher – o útero – que tem desejos próprios de sexo e procriação. A falta de relações sexuais e de gerar filhos pode levar ao sufocamento e à sensação de angústia, uma vez que o útero se desloca se seus desejos são violentamente frustrados, pressionando outros órgãos que afetam a respiração.

Na Idade Média, a histérica se transformou em “um ser possuído”, objeto, então, de competência jurídica e religiosa. Basicamente, tratava-se do comportamento das bruxas e da bruxaria e de seu julgamento” (Ramos, 2008:23). Na Renascença, que rompeu com a Idade Média buscando inspiração na Grécia antiga, a retomada da histeria é pelo viés da sua renaturalização, como sintomas de repressões que o vaso feminino possa sofrer, ou da cura médica (Ramos, 2008: 22-25).

No século XIX, o médico francês Pierre Briquet publica um livro intitulado “Tratado clínico terapêutico da histeria” e tem como pressuposto a histeria como sintomas da perturbação emocional da disfunção do cérebro. Relaciona estes sintomas também aos homens (Ramos, 2008: 24). O útero foi para as cucuias e o cérebro começou a receber todos os créditos e descréditos da existência emocional humana. Mas, os homens ganham algum status emocional – e isto é sempre bom!

O neurologista Jean-Martin Charcot, seguidor de Briquet, se atém ao aparecimento desta doença por conta das vivências de fortes emoções e da predisposição. Por meio da hipnose, produziu um tipo de “histeria de laboratório” e, por conta dela surgiam doenças físicas como dores musculares, paralisias, as contrações, as anestesias, transtornos alimentares, redução do campo visual, entre outras.

Com isso ele reafirma a ideia de Pinel sobre doenças mentais que estariam ligadas à “alma”, à dimensão psicológica ou das paixões. Em suas pesquisas enfatiza, também, a histeria masculina. Parecido com a neurastenia (astenia – fraqueza; neuro – cérebro) estudada pelo neurologista George Beard, com seus sintomas de angústia, depressão, fraqueza muscular (Ramos, 2008: 27-28).

Tanto Charcot como Briquet não viam relação da histeria com o desejo erótico. Já para outros estudiosos da época, os sintomas histéricos tinham relação com violação sexual, a exposição às cenas impressionantes desta temática e à insatisfação sexual como os antigos gregos pressupunham (Ramos, 2008: 29).

Diz-se que, graças à histeria e aos estudos sobre a obra de Charcot, Freud inaugura a psicanálise. Ele chama de conversão somática a transformação de elementos psicológicos em sintomas físicos por processos misteriosos. Este mistério retoma a questão corpo-mente (Ramos, 2008: 31) e um novo objeto de estudos ganha destaque – o inconsciente pessoal.

Com Jung, por fim, o inconsciente pessoal se abre ao coletivo, às caudas ancestrais e à riqueza cultural. Com o inconsciente coletivo aparecendo em sonhos, nos mitos, nos eventos sincrônicos da vida, é revelado o campo onde se alojam os tesouros e dragões da nossa história milenar.

Por Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

Fontes complementares – Livros: Mamãe Você me ama?” – Barbara M. Joose / “Meditações de Bert Hellinger”; “As Ordens do Amor”; “A Fonte não precisa perguntar pelo caminho” Ambos de Bert Hellinger / *Histeria e psicanálise depois de Freud” (UNICAMP) – Gustavo A. Ramos.

Leia mais em: Vínculos do Destino: A Fonte não precisa perguntar pelo caminho / Encontrando Seu Lugar na Árvore Ancestral da Vida

Artigos, Mensagens Guardiãs/ Guardiões da Vida, da Lei e da Justiça Divina, Mensagens YEHUÁ

A Visão do Lobo de Libra

“Aos olhos que desejam ver pelos meus olhos,

ofereço a escuridão da minha noite:

a profundidade das minhas raízes,

a profundeza dos meus oceanos

e o vazio do meu silêncio interior

que habita a vastidão do universo.

Só ofereço aquilo que conheço e que posso dar

na medida dos meus limites

com humildade, gratidão e respeito,

nem mais, nem menos.

Não ofereço nenhum caminho

pelo qual já não tenha passado,

cujas trilhas conheço todas, uma a uma,

mesmo quando na escuridão do meu ser.

Sou escuridão, sou profundeza,

Sou vazio e sou silêncio.

Mas também sou luminar, luminescência,

Sou Sol, Lua e Estrela!

Conhece sua Luz aquele que esteve nas suas profundezas.

Conhece sua Estrela aquele que viveu sob a noite da alma.

Um céu estrelado só se revela numa noite escura,

não menos cheia de Luz, sabedoria e significado.

Conhece sua força e coragem aquele que ousa,

que aprofunda-se nos seus oceanos emocionais 

e desce fundo através das suas raízes –

as águas mais frescas e puras

se encontram nas profundezas.

Conhece a luminescência – luz e consciência –

aquele que mergulhou na vastidão do seu silêncio interior,

espaço que nada externo é capaz de preencher,

um vazio cheio de presença e transcendência.

O universo é repleto de ‘vazios cheios’,

preenchidos com matéria, energia, estrelas, vida.

Só pode ser Sol aquele que um dia foi Lua

para conhecer e alegrar-se com o luminar do dia e da noite.

Este é um princípio de equilíbrio,

do feminino e do masculino complementares,

do Yin e do Yang também residente em nós.

À semelhança das profundezas das raízes,

dos oceanos, do silêncio e do universo

somos este tudo no Todo, e o Todo é tudo em nós.

Olhar pelos olhos de outro, portanto,

é ter a coragem de mergulhar no seu âmago,

é calçar os seus sapatos e andar pelos seus pés.

A premissa para não se perder

nas suas e nas trilhas profundas do outro

é tornar-se os olhos do Lobo de Libra:

o mestre dos caminhos da noite da alma.

Aquele que tem a coragem de aprofundar-se em si

para mapear as trilhas dos seus abismos 

terá a visão do Lobo de Libra:

  olhos que aprenderam o equilíbrio da balança

entre o dia e a noite de Brahma,

entre o Kharma e o Dharma.

Você conhece as profundezas do seu ser

para ser os olhos do Lobo de Libra?

Para mudar e expandir sua visão?

Para desejar ser os olhos de outrem?”

©Yehuá e Uma Guardiã da Vida na Noite da Alma