Constelação Familiar, Feminino Sagrado, Terapias Integrativas

Identificando Padrões: Curando a Si, Sanando a Família e as Futuras Gerações

“Todas as Mulheres que se curam ajudam a sanar todas as mulheres que lhe precederam e todas as que virão depois (e o mesmo se aplica aos homens) – Dra. Cristiane Northup

O texto que transcrevo mais abaixo é um exemplo vivo e real de como os padrões familiares podem ser passados de geração após geração como uma verdade absoluta, até que venha algum membro familiar e comece a questionar os porquês de um determinado comportamento, pensamento ou atitude – o que Bert Hellinger chama de “Buscador”.

Alguma vez você se questionou porque você, seu irmão ou sua tia se comportam exatamente como seu avô, sua avó ou seu bisavô? Nós tendemos a expressar e manifestar o que aprendemos ou herdamos de forma consciente ou inconsciente dos nossos antepassados, uma maneira de honrá-los ou revivê-los de acordo com o que chamamos de “lealdades invisíveis”.

Os padrões numa família são como um fractal: multiplicam-se com a mesma forma ao longo das gerações. Existem várias vertentes de conhecimento que os estudam. Aqui, minha lupa está focada nas Constelações Familiares e Sistêmicas, na Psicogenealogia e na Teoria dos Campos Morfogenéticos – no Blog você encontra artigos sobre esses assuntos.

Três gerações de mulheres que arrumam o cabelo da mesma maneira – Foto: Nina Röder

À semelhança da imagem acima, outro exemplo que trago e que já ouvi de muitas mulheres no que tange aos tabus sobre a menstruação, existentes principalmente entre as nossas avós e bisavós, eram as “certezas” passadas adiante sobre o assunto – ensinamentos geralmente falados aos cochichos ao pé do ouvido, longe da presença dos homens na família.

Entre elas, algumas diziam o seguinte: “Não se pode lavar a cabeça quando menstruada porque o sangue pode subir, provocar dores de cabeça ou deixar a mulher doente”; “Não se pode ter relação sexual enquanto menstruada. Não faz bem para a mulher”; “O sangue menstrual é sujo”; “Homem não deve ver o sangue menstrual da mulher porque é feio”; “Agora que você menstruou, você já é mocinha. Precisa se comportar de forma diferente.” (nessa fase da pré-adolescência, existe a tendência do pai geralmente se afastar da filha, acreditando que não pode mais conceder-lhe carinho – tive casos de pacientes que ficaram traumatizadas por causa disso, achando que o pai não as amava mais), entre outras verdades que eram seguidas à risca [Se você, querida leitora, souber de mais “verdades” como esta, compartilhe conosco nos comentários para enriquecer o tópico].

Hoje, sabemos que muitas dessas certezas caíram por terra, uma vez que as mulheres estão mais apropriadas de si, do seu corpo, dos seus ciclos e do seu emocional. Contudo, não se enganem achando que todo mundo age de forma consciente. Infelizmente, ainda vemos esses tabus e crenças atuando. Muitas vezes, os padrões herdados e repetidos são tão sutis quanto óbvios, e ainda assim não são vistos.

Foto: Dan Kitwood – Família indiana acendendo velas durante cerimônia que marca o início do ano novo Hindu – Templo em Londres, Inglaterra. Jornalista que retratou a foto menciona a dificuldade de adaptação de famílias indianas na Inglaterra devido ao apego às crenças e rituais.

A história que segue é hilária e retrata perfeitamente esse cenário:

Conta uma história que Marta estava fazendo uma carne de tatu (lagarto para outras regiões do Brasil) na panela de ferro.

Então, o marido perguntou: – Querida, porque você corta as duas pontas do tatu?

A esposa respondeu: – Porque assim fica melhor, e assim me ensinou minha mãe.

Entretanto, Marta ficou pensando na observação do marido e decidiu ligar para sua mãe:

– Mãe, porque você me ensinou a cortar as duas pontas do tatu antes de fazê-lo na panela de ferro?

Sua mãe respondeu: – Ora, minha filha, era assim que eu sempre vi sua avó fazendo, sempre fiz da mesma forma e sempre ficou bom…

Marta, que tinha a avó presente, aproveitou e telefonou para dar um “oi” e perguntou:

– Vó, me conta o segredo do “seu tatu”. Por que você cortava as pontas antes de colocar na panela?

– Ora, querida, porque minhas panelas eram pequenas e ele não cabia inteiro. Eu cortava as pontas para que coubesse.

Assim que tomou consciência desta informação, Marta libertou-se do padrão familiar de cozinhar tatu, como se fosse de fato uma receita de família, e criou belíssimas outras formas de cozinhar a seu próprio modo.”

Isso nos mostra que agimos com esses padrões através dos nossos comportamentos, sem perceber que esses filtros ancestrais são os mesmos pelos quais vemos o mundo. Simplesmente os temos e fazemos do mesmo jeito, num eterno ciclo que não muda: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim…”. Quem nunca ouviu essa frase provinda de alguém muito tradicionalista perante seus costumes ou sua família?

Com o passar do tempo, essas bases de comportamento se transformam em padrões familiares seguidos de forma consciente ou inconsciente, como se fosse um ensinamento através da absorção da cultura e das lealdades invisíveis. Assim, muitas das nossas batalhas pessoais se originam, de fato, nas experiências das nossas famílias.

Faz bastante sentido quando tomamos consciência de que nossos antepassados nos ensinam a pensar, a nos comportar, a acreditar em determinadas “verdades”, a seguir tradições e ritos de passagem. Desta forma, aquilo que entendemos em relação à nossa realidade nada mais é do que a projeção dos dados inseridos pela nossa história familiar, gravados nos arquivos das nossas células e DNA, no inconsciente familiar.

Os padrões insanos, diria até injustos e desequilibrados de muitas famílias, como: estar disposto a trabalhar duro na vida sem ter nenhum reconhecimento ou trabalhar duro, mas não ter muito dinheiro porque é visto como algo mau, ou ainda achar que “somente tenho valor se possuo diplomas”, podem acabar dirigindo a nossa vida e nos distanciando do verdadeiro caminho da alma.

Esses são os comandos intrínsecos que rodam no nosso software interno, programações inconscientes, lealdades invisíveis ou mandatos que atravessam gerações, e que normalmente conflitam com a alma e o propósito de vida, de existir em relação à comunidade, à sociedade e à humanidade.

Compreender e estar consciente desses padrões limitantes é uma forma de deixarmos de propagar algo por compensação, por lealdade ou por “verdade cega”, abdicando de um caminho que não é nosso para seguir o verdadeiro propósito da nossa alma, fugindo também dos extremismos do bom ou ruim, do certo ou errado.

Essa consciência, adquirida através da busca pelo autoconhecimento, do trabalho interior constante e da auto-investigação – mantendo ativo o nosso observador interno – produz efeitos poderosos e de longa duração. Ao reconhecermos o passado, somos capazes de ressignificar o presente, nos reconciliando conosco para mudarmos e criarmos uma nova realidade para o nosso futuro – nos reconciliando também com nossa família, sem a pretenção ou sentimento de onipotência em querer modificá-los.

Essa é uma chave que pode nos fazer melhorar como pessoas e evoluir nossos relacionamentos afetivos, nos auxiliando a encontrar o sentido e o propósito da nossa existência de forma mais consciente, leve e madura.

Reconhecer aquilo que faz parte de você, mas não é você; aprender a “desidentificar-se” do que não é seu a partir da criação e da nutrição de quem você realmente é, daquele que quer se tornar, é um caminho possível – seguindo um passo de cada vez para não perder a oportunidade de estar atento(a) a todas as etapas da sua autotransformação.

Assim como o Baobá, umas das árvores milenares da África, aqueles que a plantam não terão a chance de experimentar o seu fruto, mas terão contribuído para a sua existência e os frutos que virão. Somente após cem anos, ela começa a frutificar. Assim será o nosso legado. As quebras de padrões e crenças limitantes, as mudanças e evoluções que realizarmos em nosso ser agora serão os frutos para as futuras gerações.

Baobá ou “Baobab” na África – Foto: Kevin Fairburn

Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

Fonte complementar: Sanando famílias, curando a nós | “A Simetria Oculta do Amor” – Bert Hellinger | “A Fonte não precisa perguntar pelo caminho”- Bert Hellinger | “Pesquisa sobre “Lealdades Invisíveis” e “Mandatos Transgeracionais” | “Simbiose e Autonomia nos Relacionamenos” – Franz Ruppert

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