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Lealdades Invisíveis: Mandatos Transgeracionais que nos travam

Esse é um tema recorrente, abordado através da visão e dos trabalhos das Constelações Familiares e da Psicogenealogia. Em outras vertentes como a Terapia Cognitiva, a Gestalt-Terapia, a Hipnoterapia e a “Constelação do Trauma” – trabalho desenvolvido por Franz Ruppert Sheldrake no tratamento de simbioses destrutivas nos relacionamentos – esse assunto também é levado em consideração.

A proposta desse artigo é trazer esclarecimentos diante do que comumente chamamos de autosabotagens, levando o nosso olhar para reencontrarmos nosso verdadeiro Eu e o nosso propósito de alma. Através da conscientização do que não é nosso, dos padrões de pensamento e comportamento que estejamos repetindo, abre-se um caminho possível à autorealização, para que possamos ter uma vida mais leve e equilibrada sem termos que carregar nas costas “pesos” herdados. Aquele que está no caminho do autoconhecimento, mesmo que leve tempo, sabe que terá que atravessar o deserto interior e mergulhar fundo, conhecer a noite da alma.

Quando nunca estamos satisfeitos com os nossos relacionamentos ou com a nossa profissão, quando não conseguimos nos manter por muito tempo num relacionamento com um parceiro(a) ou quando parece que há uma divisão interior em nós – uma voz que diz “sim” e outra que diz “não” – é possível que estejamos obedecendo ao que se chama de Mandatos Transgeracionais: crenças que se tornaram padrões no sistema familiar e que foram passados de geração após geração como modelos a serem seguidos, lealdades ou normas a serem obedecidas.

Segundo a Constelação Familiar, conforme observada por Bert Hellinger e outros terapeutas como Joan Garriga, Stephan Hausner e Marianne Franke, somos todos movidos por lealdades invisíveis e inconscientes relativo a integrantes do nosso sistema familiar. E tudo aquilo que não enfrentamos em vida, que não queremos ver ou nos conscientizar, acaba se tornando o nosso destino.

Essas lealdades são a dinâmica de fundo, o que ocorre nos bastidores do palco do histórico familiar, que nos posiciona de forma a repetirmos acontecimentos difíceis contidos na história da rede familiar de origem – à semelhança de uma teia tecida ao longo de gerações e que, com o tempo, possui padrões que se repetem como forma de compensações.

INCONSCIENTE FAMILIAR

Todo sistema familiar possui seu próprio campo inconsciente imaterial, onde todos os acontecimentos vividos por seus integrantes estão registrados. Talvez, possamos dizer que dentro de nós reside uma “Matrix Familiar” (termo que me vem em mente nesse momento). Por sua vez, essas experiências do sistema são acessadas pelo inconsciente pessoal de todos os indivíduos que fazem parte do grupo familiar. Na Alquimia, por exemplo, vemos isso como a Flor da Vida, onde cada membro representa uma pétala dessa flor, e todos estão interconectados e interligados entre si.

Bert Hellinger observou em seu trabalho que a busca pela necessidade de pertencimento na família nos coloca na rota de repetirmos acontecimentos difíceis do nosso sistema, como uma forma de solidariedade familiar. Sofremos para acompanhar alguém que sofreu antes. Fracassamos para acompanhar alguém que fracassou. Somos infelizes porque ser feliz nos faria diferente de um sistema familiar que enfrentou muitos infortúnios e infelicidades no seu caminho.

Lembrando que aqui ser diferente é um risco ao pertencimento. Um exemplo disso é: se houveram perdas financeiras significativas na geração dos avós, filhos e netos podem repetir isso tendo uma realidade de dificuldade financeira ou mesmo não conseguindo manter e usufruir da riqueza que criaram. É como se, mesmo sem ter vivido o que causou sofrimento em outra geração, a pessoa buscasse uma forma de experienciar aquela dor, igualando-se aos que vieram antes, sofrendo junto. Pertencendo.

INCONSCIENTE PESSOAL

Esse movimento invisível, na grande maioria das vezes é conduzido pelo inconsciente, algo que a pessoa faz sem perceber racionalmente que está repetindo um acontecimento anterior. Em sua experiência de vida, ela consegue identificar que sofre, que a vida está difícil, que há emoções que são sentidas e que ela não sabe de onde surgem, mas tem muita dificuldade em mudar as emoções ou alterar essas condições, vivenciado-as continuamente.

Como traz Hellinger em seus estudos, esta pessoa está vinculada a dor de seu sistema familiar através de uma lealdade profunda e invisível, que a faz garantir seu pertencimento ao sistema replicando aquilo que foi difícil e pesado para seus antepassados. Um dos materiais base no desenvolvimento da terapia de Constelação Familiar foi o livro Invisible Bonds (Lealdades Invisíveis). Na busca pela definição do que seria a lealdade dentro do sistema, os autores descrevem que anteriormente ao aparecimento da lealdade, deve existir uma expectativa estruturada no grupo em relação aos quais todos os membros assumem um compromisso.

Dessa forma, para “ser percebido” como membro do grupo, todos os integrantes devem interiorizar o espírito das expectativas deste sistema e assumir comportamentos e atitudes relacionados ao que é esperado, cumprindo dessa forma os Mandatos Interiorizados ou Transgeracionais.

OS MANDATOS TRANSGERACIONAIS

Nosso sistema familiar é o grupo que dá origem a nossa vida. Ele é o principal sistema que participamos e que temos a necessidade interna de pertencer. Isso é instintivo em nosso inconsciente e atua de forma profunda em nosso ser. 

As regras internas, o certo e o errado, o bom e o ruim, as noções do sucesso e do fracasso, do que deve ser feito ou não, são todos mandatos que recebemos através do nosso vínculo com o nosso sistema familiar. Assim, os acontecimentos experienciados como um todo compõe aquilo que forma nossa visão do mundo e nossa ação na vida.

As definições desses mandatos moldam aquilo que vemos como possibilidade de caminhar na vida. Elas formam a área que temos “livre” para nos desenvolver segundo as crenças da família. Essa liberdade, entretanto, é uma ilusão porque está contida dentro de parâmetros que se provam muitos difíceis de ultrapassar, e quando ultrapassados, exigem um alto custo emocional a ser pago.

Uma das passagens dos livros de Hellinger diz: “Observei que, em seus pensamentos e ações, as pessoas estão vinculadas a um campo. Ele (o campo) determina o que percebemos e o que fazemos. Dentro dele temos, naturalmente, uma certa liberdade de ação, mas julgar que alguém possa por livre decisão abandonar o campo é uma ilusão pelo qual muitos pagam.”

São essas regras internas do sistema, aos quais estamos conectados pela nossa lealdade, que nos fazem repetir destinos difíceis. Repetimos porque queremos assegurar nosso pertencimento, e fazemos isso espelhando comportamentos e acontecimentos já vividos pelo sistema familiar.

PADRÕES E CRENÇAS INTERIORIZADAS

Não são apenas os traços físicos que herdamos dos nossos antepassados e da nosso origem cultural, mas também formas de comportamento, talentos e dons, qualidades e fraquezas, medos e traumas, lealdades amorosas ou destrutivas. As experiências carregadas de emoção são registros que carregamos na mochila da mente e do inconsciente coletivo familiar.

Nosso comportamento de adesão às regras relacionais, ao que o grande clã entende como “norma”, faz com que sejamos reconhecidos e pertençamos, o que causa uma sensação ilusória de segurança, a velha crença: “se pertenço e sou reconhecido, então existo”. Contudo, muitas vezes não questionamos mandatos inconscientes, e concordamos com histórias que não são nossas, mas que as tomamos como se fossem desde o nosso nascimento.

Elas são uma herança que nos bloqueia e que dificulta o avanço da nossa existência, uma vez que estão geralmente carregadas de medos, de sofrimentos, de situações traumáticas, de mensagens silenciosas mascaradas de “escolhas pessoais”. Esta bagagem define os elos de simetria ou identificação que temos com nosso sistema familiar.

Algumas transmissões de um mandato transgeracional podem estar ligadas a:

  • Escolha ao celibato.
  • Crianças que vieram de lares agressivos.
  • Crianças que assistiram violências de pessoas que foram abusadas.
  • Filhos de pais que se foram e nunca mais voltaram.
  • Filhos de pais ou mães que faleceram cedo e que os irmãos mais velhos tiveram que assumir o fardo de um papel materno ou paterno para suprir a ausência.
  • Crianças que foram prometidas aos santos por promessas de suas mães.
  • Crianças que foram abandonadas pelos pais por falta de dinheiro, de cuidado ou em consequência de morte e guerras.
Arte de Josephine Wall

Todas estas vivências, carregadas de fortes emoções, de perdas, de saudade, de tristeza, de ódio, de raiva, de amor, de paixão, de destemperança, registram inconscientemente contextos de vidas pretéritas que surtem reflexos de lealdade ou reparação e que ecoam como ideias próprias.

Essas crenças podem ressoar como mantras nos ouvidos das pessoas, desde a fase de pré-concepção ou concepção, aquelas que vivem algumas das tristezas relacionadas acima e cimentam no inconsciente delas mensagens de que ter um relacionamento pode ser algo muito doloroso de carregar. Alguns exemplos seriam: “Antes só do que mal acompanhado” | “Homens não valem nada” | “Mulheres são vadias” | “Casamento é uma prisão” | “Artistas são vagabundos” | “Lugar de mulher é pilotando o fogão” | “Você precisa se sacrificar para ser feliz”| “Você precisa trabalhar muito para ganhar dinheiro”…E por aí vai.

Observemos o caso de um artista repudiado por uma família que aspirava que ele continuasse a sucessão de médicos renomados no sistema – ou o oposto, várias gerações sucessivas de médicos, onde alguns se descobrem infelizes na profissão. Vejamos a mulher que acredita que “não tem outra saída” em sua vida do que se casar com um homem que a mantenha; quem não pode viver seu amor livremente por medo da retaliação; um filho que “deve gostar” de futebol ou uma filha que “não pode” jogar futebol porque é coisa de menino; quem ama estudar um tema que, para a família, “não tem futuro”; aquele que está convencido que a vida não faz sentido sem o seu parceiro(a).

PSICOGENEALOGIA

Dentro do contexto da Psicogenealogia, é comum descobrirmos que pessoas que decidiram pelo celibato, ou ainda que decidiram ficar sozinhas possuem algo em comum (podendo haver ao longo das gerações semelhança de nome, de data de nascimento, concepção próxima ou de vinculo à morte de algum antepassado) e podem estar simetricamente relacionadas à:

  • Membros que faleceram muito cedo, de mortes traumáticas e não processadas pelo sistema familiar.
  • Antepassados que sofreram agressões por parte de um companheiro, podendo chegar à morte.
  • Membros do sistema que foram abandonados.
  • Parentes cuja paixão foi condenada e o relacionamento proibido (causas podem estar ligadas a diferença econômica, cultural, de raças ou tabus sociais).
  • Abortos do sistema familiar.
  • Mulheres que foram “aprisionadas”, sufocadas, castradas por seus companheiros.
  • Mulheres que morreram no parto.
  • Crianças que nasceram e cujas mães morreram no parto.
Nesse vídeo, as lealdades que operam nos bastidores do nosso ser ficam bem claras.

Também é possível que a decisão de passar por esta existência sem construir um relacionamento de casal esteja relacionada à uma lealdade de vocação espiritual de algum outro membro do sistema familiar. Famílias italianas, por exemplo, há não muitos anos atrás desejavam que um de seus filhos fosse optante pela vida religiosa. Estar vinculado simetricamente a um membro com esta vocação ou até mesmo um mandato (ter seguido a vida religiosa por imposição dos pais e não por opção), faz com que suas “escolhas” estejam condicionadas às dele.

Outra questão, que remonta tempos não tão distantes e que é importante trazer à luz, era o preconceito e a vergonha que as famílias tinham do seu entorno social, cultural, étnico ou até mesmo religioso, quando haviam membros do sistema familiar que informavam sua homossexualidade ou até mesmo jovens meninas que engravidavam de seus namorados. 

Muitos homossexuais foram tratados como doentes, foram expulsos de suas casas, foram assassinados ou até mesmo internados em seminários ou conventos por entenderem que tratava-se de uma doença, de um desvio de comportamento. Também as jovens meninas eram escondidas em conventos, como se optantes da vida religiosa fossem, para que tivessem seus filhos – este fato já é pauta de diversos filmes baseados em fatos reais.

UM OLHAR EM BUSCA DA CURA, EM BUSCA DE SI

Através da Constelação Familiar ou de qualquer uma das abordagens citadas, é possível observarmos o que atua no inconsciente pessoal, assim como o que leva o indivíduo a repetir em sua vida acontecimentos difíceis da sua história familiar. Ver e experienciar o contato com o inconsciente é uma das principais forças de cura proporcionadas por esse trabalho terapêutico, porque traz à luz da consciência o que estava esquecido, excluído, obscurecido pelas memórias do tempo.

É possível que fiquemos cientes da nossa lealdade, de como ela atua nos sabotando e travando nosso progresso e prosperidade, e então possamos experimentar o “distensionamento” do sistema como um todo – que pedia a atenção para algo que necessitava ser visto, incluído e integrado com respeito, para depois ser liberado para seguir o seu próprio curso e destino.

Nesse estágio terapêutico, damos um lugar no nosso coração àquele que foi excluído, compreendemos que o sofrimento que tínhamos não era nosso, mas podemos ajudar liberando-o, sendo a voz ou o choro que muitos ancestrais não puderam expressar. E em alguns casos, realizar um ritual de reverência ou mesmo uma cerimônia de um luto que não ocorreu na época também são ferramentas de ajuda.

Quando esse fator visto é liberado, o instinto de pertencimento é capaz de gerar melhores estratégias para nós e os envolvidos, sem tanto “peso”, custo emocional ou mesmo custo de saúde. Essas estratégias vão auxiliando na mudança de padrões, mais conectados com o nosso movimento pessoal – em oposição ao movimento do sistema – para que possamos nos sentir parte do sistema sem tomarmos para nós os encargos de todo o grupo.

É neste distensionamento que reside um dos grandes resultados da terapia em Constelação Familiar: permite a qualquer um encontrar uma possibilidade de movimento mais leve, com mais significado, menos desgaste emocional e com respeito maduro aos acontecimentos difíceis do sistema familiar de cada um.

Conscientizar-se de si e compreender os mecanismos internos que nos movem é um caminho para a cura, para olharmos também com consciência e respeito às lealdades inconscientes e para os mandatos transgeracionais. O que nos compete é apenas a nossa própria mudança interior, o que significa que não temos o poder de mudar o destino de outros membros da família nem de modificar o “script interior” das suas lealdades invisíveis.

Esse é o ponto em que aprendemos a conviver com os outros aceitando-os como são, nos mantendo humildes. E para exercermos de fato o livre arbítrio, para desenvolvermos a verdadeira autonomia e encontrarmos uma forma equilibrada de pertencer ao nosso sistema familiar sem “peso”, é necessário que tenhamos consciência dos padrões que nos condicionam, nos travam e nos sabotam, para assumir o nosso verdadeiro lugar no sistema familiar. Trilhar o caminho do autoconhecimento é conhecer as nossas luzes e também as nossas sombras.

Luciane Strähuber – Educadora, Consultora e Terapeuta Integrativa

Fontes complementares: 1. “Invisible Bonds” (Lealdades Invisíveis) – Ivan Boszormenyi-Magy e Geraldine M. Spark | 2. “Um Lugar para os Excluídos” – Bert Hellinger | 3. “Simbiose e Autonomia nos Relacionamentos” – Franz Ruppert | 4. “A Simteria Oculta do Amor” – Bert Hellinger | Sites: 5. Lealdades Invisíveis – Psicologia | 6. Lealdades Invisíveis – Raízes da Mente | 7. HS Constelação – “Lealdade Invisível: Quando cedemos nossa vida por um vínculo familiar” | 8. Filmes renomados sobre o tema: “PHILOMENA” (2013), de Stephen Frears (Baseado em história real) e “A Voz do Coração”, de Christophe Barratier (2003).

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