Artigos, Educação e Sustentabilidade, Pesquisa e Conteúdo Gratuito, Terapias Integrativas

Um Avanço: Espiritualidade é disciplina na Faculdade de Medicina

“A espiritualidade não pode reduzir-se a mais uma terapia que os médicos podem receitar, da mesma maneira, por exemplo, que receitam antibióticos para uma infecção. A espiritualidade e a oração tem sentido em si mesmas e por si mesmas. Não são meros meios para melhorar a saúde; Nem a oração necessita ser justificada pela medicina, nem a medicina pela religião. Ambas são atividades genuínas e valiosas que se justificam a si mesmas, em sua própria esfera (…) Pessoas são seres bio-psico-sociais-espirituais, que se realizam na comunidade de pessoas e na comunidade dos povos do mundo.” (J. Ferrer)*

Essa notícia vem trazendo a confirmação de uma necessidade crescente: tratar o ser humano de forma integral. A busca pela união da medicina com a espiritualidade data de milênios, se levarmos nosso olhar através da história da humanidade por diferentes povos e tradições. Contudo, ainda vivemos cenários mercadológicos conflituosos, cujo interesse é o de mantê-las separadas – muito embora não estejam de fato.

Com o avanço das tecnologias, fomos esquecendo do essencial, de que somos seres multifacetados, multidimensionais. E agora, no pico da revolução tecnológica, vemos essa busca voltando com mais força porque ela prevê novamente uma ação de inclusão, de integração, de reconexão com o Ser e com a necessidade do pertencer e partilhar. Qual seria a razão de nossa existência e propósito se não pudéssemos compartilhar o que temos de melhor, o que nossa alma veio oferecer enquanto dons e talentos?

De um ponto de vista terapêutico, vejo que as tecnologias são capazes de gerar inclusão se somos capazes de torná-las ferramentas para unir e gerar colaboração, sem que nos tornemos dependentes delas. As dicas de seo positivo, as estratégias de marketing e os inúmeros  cursos de coaching no mercado ensinam tudo para ser o top, um influenciador nas mídias sociais, estar no topo do ranking do Google ou ter uma página com milhares de visitas e likes. Mas, em meio a isso, o essencial está ficando para trás e muitos estão se vendo depressivos, isolados pelas redes sociais e pelos aplicativos de relacionamento porque tudo gira em torno de um like, do ser reconhecido e ser aceito, como se as emoções pudessem ser rotuladas ou determinadas apenas por “curtir” ou “não curtir”.

Algumas faculdades das áreas da saúde no Brasil já possuem iniciativas que contemplam essa união. Em São Paulo, na faculdade de medicina de Taubaté, a disciplina de Medicina e Espiritualidade deixou de ser optativa para oficialmente fazer parte do currículo. Num comparativo a outros países, ainda estamos engatinhando para chegar a um ponto de equilíbrio entre ciência e espiritualidade, vivendo numa sociedade ainda mais competitiva do que igualitária, mais focada no ter e parecer do que no ser.

Contudo, através de um olhar otimista, se sairmos um pouco do meio acadêmico-científico e olharmos os vários pequenos grupos, podemos ver iniciativas louváveis acontecendo por parte de pessoas comuns – a força da colaboração e da união sendo construídas para criar algo novo, algo que vá de encontro a esse objetivo, seja em sua própria comunidade, em seu bairro, em sua cidade ou mesmo em sua casa ou ambiente de trabalho.

Médicos em oração antes de cirurgia

Exemplo disso estão sendo: o aumento das práticas de meditação nas escolas, hospitais cada vez mais preocupados em cuidar do cuidador, a fim de estender este equilíbrio aos seus pacientes – principalmente no que se refere aos núcleos de pacientes com câncer; universidades em parceria às faculdades da área da saúde que promovem painéis e encontros sobre o tema; notícias sobre médicos que incluem em seus tratamentos alimentos orgânicos, medicina ortomolecular, medicina oriental e terapias complementares para incentivar a melhoria da saúde geral e também promover a redução de medicação alopática.

Além disso, vemos a procura cada vez maior pelas práticas integrativas e complementares no Sistema Único de Saúde (SUS) do nosso país – Leia mais: Práticas Integrativas: Cresce 46% a procura no SUS – e ainda ações para resgatar a sabedoria de cura da medicina natural e integrá-la novamente à nossa rotina. Todo esse movimento vai além de religião, de crenças ou de panacéia popular, trata-se de resgatar uma parte esquecida de nós: o Ser. Sem o Ser, sem o que é essencial, estamos desconectados da alma, centralizados apenas no Eu, e assim distantes da espiritualidade que nos rege.

Enfim, fazendo a nossa parte de forma consciente, com responsabilidade e comprometimento, mesmo que seja um pequeno passo, já temos um bom começo. Ainda que o tradicionalismo das faculdades de medicina perdure por essas paragens do Sul, aos poucos estamos presenciando avanços importantes fazendo jus à essa união, a exemplo de instituições como a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o Hospital Divina Providência da capital gaúcha. Esforços provindos de outras universidades e faculdades de saúde como enfermagem, fisioterapia, farmácia, veterinária, psicologia, entre outras, também são destaque. Um pequeno passo em direção a mudança é um grande passo em direção ao progresso!

José G. Ribeiro – Professor da Faculdade de Medicina da UFF (Foto: O Globo)

Mais informações sobre a notícia na UFF/ Rio de Janeiro – Artigo de Luiza Fletcher – 07/02/2019

“Todos já ouvimos falar, pelo menos uma vez, que os estados emocional e espiritual influenciam diretamente no tipo de vida que levamos, e apesar das opiniões acerca desse assunto serem controversas, a Medicina resolveu apoiar essa crença. Aspectos importantes para viver plenamente englobam aprender a cuidar do interior, perdoar, liberar sentimentos e pensamentos negativos e despertar a consciência. Essas práticas estão diretamente relacionadas ao entendimento espiritual.

Com o apoio desses conceitos, uma nova disciplina optativa foi introduzida no currículo da faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro: Medicina e Espiritualidade. “Na Europa e nos Estados Unidos, cerca de 80% das faculdades já têm essa cadeira no currículo. No Brasil, ainda estamos devagar”, diz José Genilson Ribeiro, coordenador da disciplina na universidade.

Também explica como funciona o ensino: “Acreditamos que a doença começa na alma, instala-se no corpo físico, e que é preciso tratar o paciente de maneira integral. Não basta tratar o efeito da doença, mas os aspectos totais. Muitas pessoas têm mágoas e não conseguem perdoar. Isso as deixam presas em suas dores, o que dificulta a melhora física”, assegura.

Os professores que lecionam Medicina e Espiritualidade são guiados pela ideia de “medicina integrativa”, seguindo a proposta da Carta de Ottawa, de 1986, que tem o objetivo de contribuir com as políticas de saúde em todos os países de maneira igualitária. De acordo com o documento, a verdadeira saúde é uma consequência do bem-estar físico, psicológico, familiar, social e espiritual.

Um ponto muito importante disso tudo é que os alunos têm a oportunidade de aplicar os conhecimentos sobre a disciplina fora das salas de aula. Eles podem atender pacientes gratuitamente pelo Núcleo de Estudos em Saúde, Medicina e Espiritualidade (Nesme) da UFF, local de trabalho de profissionais de medicina, psicologia e arteterapia.

Carlos Roberto Figueiredo, um estudante da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e fundador da Liame – Liga Acadêmica de Medicina e Espiritualidade, fala um pouco sobre o ensino da espiritualidade: “Criamos a Liame em 2014, com base no aumento do interesse acadêmico-científico pelo tema de saúde e espiritualidade. Em 1998, foi proposta pela OMS a inclusão da dimensão espiritual do ser à sua definição de saúde, convidando-nos a repensar o paradigma científico frente ao diálogo com o sentido espiritual da vida.”

Carmita Abdo, psiquiatra, diretora da Associação Médica Brasileira (AMB) e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), diz que o ponto de vista da disciplina é comprovado e contextualiza sua opinião: “As emoções levam a modificações de substâncias no organismo. Quando liberamos ocitocina e endorfina, elas nos levam à melhora na imunidade e às sensações de bem-estar. O contrário ocorre com sensações negativas, que liberam substâncias que baixam a imunidade. Com o perdão não é diferente. Quando perdoamos alguém temos a sensação de alívio, de gratificação, o que é revertido em ocitocina”, diz.

Certamente, essa é uma matéria muito importante para a formação de médicos mais conectados aos seus pacientes, capazes de promover não apenas uma cura física, mas também auxiliá-los na busca por uma cura espiritual.”

Por Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

Fonte complementar: * Citação de Referência: Ferrer, J. Medicina y Espiritualidad: redescubriendo uma antigua alianza. In: Bioética: um diálogo Plural (Homenaje a Javier Gafo Fernández). Madrid: Ed. Univ. Pontificia Camillas, 2002./ * Resenha completa da Citação: Jennifer Braathen Salgueiro, PhD (GPPG/ Hospital de Clínicas de Porto Alegre/RS) – Bioética e Espiritualidade: https://www.ufrgs.br/bioetica/ferrer.htm

Anúncios

Deixe um comentário com amor!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.