Artigos, Constelação Familiar, Terapias Integrativas

Concordância e Resiliência: Na Visão da Constelação Familiar

 “De um ponto de vista sistêmico, os problemas nada mais são do que tentativas frustradas de amar, e o amor que alimenta o problema pode ser redirecionado para solucioná-lo. Nossa tarefa é encontrar o ponto que amamos. Se ele é descoberto, tenho uma base de apoio. Quando encontramos este modo apropriado de amar, o problema se dissolve e o amor que alimentava o problema o resolve” – Bert Hellinger, do livro “A Simetria Oculta do Amor”.

Um dos maiores ensinamentos da Constelação Sistêmica de Bert Hellinger é a concordância com as coisas como elas são e da forma como se apresentam para nós. Concordar não é submeter-se cegamente às condições ou ser submisso a tudo e todos, mas compreender que herdamos um passado de nossos ancestrais que não pode ser alterado, que foi a única forma possível de a vida ter seguido adiante.

Sobre a aceitação ao nossos pais, ao nosso destino e ao nosso passado, a Constelação nos ensina de forma tão bela e profunda como se processa o oculto fluxo das Ordens do Amor. O que de fato faz com que um problema persista dentro de uma família é o desajuste dessa ordem, cujo fluxo de amor não tem espaço para fluir livremente entre todas as partes. Ao amor ainda falta o lugar no coração de alguns, iniciando pelo auto-amor e pela consciência de que uma família é como uma flor da vida: cada um sendo uma pétala, uma parte dessa geometria sagrada, com suas leis e suas ordens.

O primeiro ponto é que os pais, ao darem a vida, dão à criança tudo o que possuem, nesse mais profundo ato humano. A isso eles nada podem acrescentar, nem disso nada podem tirar. Na consumação do amor, o pai e a mãe entregam a totalidade do que possuem. Pertence, portanto, à ordem do amor que o filho tome a vida tal como a recebe de seus pais.

Dela, o filho nada pode excluir, nem desejar que não exista. A ela, também, nada pode acrescentar. O filho é os seus pais e o que recebeu deles. Portanto, pertence à ordem do amor para um filho, em primeiro lugar, que ele diga sim aos seus pais como eles são – sem qualquer outro desejo e sem nenhum medo. Só assim cada um recebe a vida: através dos seus pais, da forma como eles são.

Esse ato de tomar a vida é uma realização muito profunda. Tal ato consiste em assumir minha vida e meu destino, tal como me foi dado através de meus pais. Com os limites que me são impostos. Com as possibilidades que me são concedidas. Com o emaranhamento nos destinos e na culpa dessa família, no que houver nela de leve e de pesado, seja o que for.

Essa aceitação da vida é um ato de fé. É um ato de despojamento, uma renúncia a qualquer exigência que ultrapasse o que me foi transmitido através de meus pais. Essa aceitação vai muito além dos pais. Por esta razão, nesse ato não posso considerar apenas os meus pais. Preciso olhar para além deles, para o espaço distante de onde se origina a vida e me curvar diante de seu mistério. No ato de tomar os meus pais, digo sim a esse mistério e me ajusto a ele.

O efeito desse ato pode ser comprovado na própria alma. Imaginem-se curvando-se profundamente diante de seus pais e dizendo-lhes:”Eu tomo esta vida pelo preço que custou a vocês e que custa a mim. Eu tomo esta vida com tudo o que lhe pertence, com seus limites e oportunidades”. Nesse exato momento, o coração se expande. Quem consegue realizar esse ato, fica bem consigo, sente-se inteiro.

Como contraprova, pode-se igualmente imaginar o efeito da atitude oposta, quando uma pessoa diz: “Eu gostaria de ter outros pais. Não os suporto como eles são.” Quem fala assim, sente-se vazio e pobre, não pode estar em paz consigo. Algumas pessoas acreditam que, se aceitarem plenamente seus pais, algo de mau poderá infiltrar-se nelas. Assim, não se expõem à totalidade da vida. Com isto, contudo, perdem também o que é bom. Quem assume seus pais, como eles são, assume a plenitude da vida, como ela é.”

“Talvez você esteja buscando nos galhos o que só encontramos nas raízes” – Rumi

RESILIÊNCIA E GRATIDÃO

Todos viemos ao mundo através de uma mãe e um pai, uma mulher e um homem, e somente com essas pessoas a nossa vida foi possível, já que se fosse outro pai ou outra mãe, seria também outro filho. Na Constelação, precisamos tomar os nossos pais sem ressalvas, olhando para as pessoas reais – um homem e uma mulher comum com suas falhas – e conectar com a grandeza da sua missão de pai e de mãe, da forma como foi. Percebendo-os como pessoas comuns que disseram sim à nossa vida, nos trazendo ao mundo, independentemente da forma como isso tenha ocorrido, ganhamos força através dessas raízes.

O fato de estarmos vivos já é o suficiente para que tenhamos condições de irmos atrás do que precisamos, por nós mesmos. Logo, ficar na postura de cobrança em relação aos pais, desejando que eles tivessem agido diferentemente ou lhes exigindo o que quer que seja, nos afasta dessa força, já que estamos aqui e podemos buscar por nós.

A ressalva nesse caso está ligada aos filhos que não querem “crescer”, tornar-se adultos de fato, aqueles que permanecem dependentes dos pais independente da idade, e isso porque geralmente existe algum desequilíbrio das ordens do amor, entre o dar e o receber entre filhos e pais; ou ainda na situação contrária, quando os pais não liberam os filhos à vida, desejando que sejam dependentes deles de forma consciente ou inconsciente, uma vez que também não receberam dos seus pais o amor que desejavam como filhos.

Nessa perspectiva, o foco é na nossa postura como filhos, independente do comportamento dos nossos pais. Percebendo o nosso lugar como filhos, mergulhando nas nossas raízes e nos curando como homem ou mulher comum que também somos, certamente deixaremos aos nossos filhos e futuras gerações uma rota mais sábia, um legado mais amoroso e equilibrado. A nossa postura e o exercício diário e permanente precisa estar focado na gratidão pela oportunidade de viver. O caminho da aceitação dos nossos pais é o que irá nos liberar para uma vida mais leve, fluídica, abençoada e próspera, mesmo em meio às adversidades.

Outro ensinamento consiste em nos percebermos como “pequenos” diante dos nossos pais. Independente da idade que tivermos, eles serão os “grandes” e nós os “pequenos”. Essas expressões novamente nada tem a ver com submissão, mas apenas estão ligadas a uma ordem de hierarquia.

Faço aqui referência à semelhança de pedras empilhadas numa cachoeira por onde a água flui – geralmente as pedras que se encontram mais acima são maiores porque recebem o maior fluxo de água. Assim, esse conceito está ligado a outra “ordem do amor”: a hierarquia, segundo a qual quem chegou primeiro em um sistema familiar tem precedência sobre quem entrou depois, sendo o posicionamento dos membros do grupo ordenados pelo “tempo”.

A não ser nos casos de pais realmente incapazes por doenças ou incapacidades afins, devemos permanecer na postura de filhos, dos que vieram depois, respeitando suas escolhas e deixando que eles dirijam suas próprias vidas. Ainda que acreditemos que seria melhor para eles fazerem isso ou aquilo, que fossem mais assim ou assado, não nos cabe interferir, assim como não gostaríamos que outros interferissem em nossas escolhas.

Isso significa permanecer constantemente no nosso lugar, sem tentarmos ser os “maiores”, os que sabem mais ou os que conduzem tudo. Só assim conquistamos nosso espaço, ganhamos força e enraizamos mais profundamente dentro de nós para nos liberarmos daquilo que não nos serve e seguirmos nosso propósito. Importante destacar que essa mudança de postura é interna e pode ser tomada mesmo que os pais não estejam mais vivos ou que não se tenham contato com eles por outras razões. Sempre é tempo de tomarmos a vida em toda a sua plenitude e sermos mais leves, porque a vida sempre nos convida a celebrá-la.

Como reflexão, deixo esse trecho de um dos livros de Hellinger para aqueles que ousam seguir adiante, em busca do seu caminho que é único, com gratidão e honra aos seus pais e antepassados. Aqueles que aceitam aquilo que não podem mudar, fazendo o que lhes cabe sem sair do seu lugar. Aqueles que assumem suas luzes e suas sombras, mergulhando fundo nas suas raízes para encontrar os seus tesouros internos, enraizando cada vez mais para dentro de si. E quando essas raízes estiverem fortes o suficiente, seus galhos naturalmente serão expandidos para um lugar de paz, sem medos, com a sabedoria de uma mente clara e à serviço do seu propósito divino. Namaste!

Alguns lidam com os movimentos da alma que se mostram nas Constelações Familiares como uma criança que se depara pela primeira vez com o mar. Fica maravilhada diante da amplidão e pressente a profundeza. No entanto, logo pega seu baldinho, tira um pouco da água, volta e diz: “Vejam, é isto aqui”. Outros, porém, se aventuram no mar aberto, entregam-se ao vento, à tempestade, ao silêncio, vagueiam até distâncias desconhecidas e voltam transformados. Porém, quando narram um pouco disto aos que ficaram, estes dizem, talvez, amedrontados: “Isso não existe”. 

Fonte complementar: Trecho de palestra de Bert Hellinger em São Paulo – em original manuscrito/ Livros: Liberados somos Concluídos”, sobre a Segurança; A Simetria Oculta do Amor; As Ordens do Amor

Luciane Strähuber – Educadora da Terapêutica Integrada

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