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O Xamanismo na Atualidade: Um Legado para o Ocidente

 “...Longe de serem trapaceiros, charlatães ou ignorantes, os curandeiros aborígenes são homens de alta categoria, ou seja, homens que alcançaram, na vida secreta, um grau muito mais elevado do que a maior parte dos homens adultos — um passo que implica disciplina, treinamento mental, coragem e perseverança. São homens respeitáveis, quase sempre dotados de notável personalidade (…) Eles têm uma imensa importância social, pois a saúde psicológica do grupo depende em muito da fé que seus poderes nele despertam(…) Os vários poderes psíquicos que lhes são atribuídos não devem ser de imediato repelidos como simples magia primitiva e ‘faz de conta’, porque muitos deles se especializaram no trabalho da mente humana, na influência da mente sobre o corpo e da mente sobre a mente…” Do livro: Aboriginal Men of High Degree – do antropólogo australiano A. P. Elkin (1945).

O texto que segue foi retirado de uma das obras mais famosas do antropólogo Michael Harner: The Way of The Shaman, cuja trajetória em contato com Xamãs de várias partes do mundo deixou um maravilhoso legado para o Ocidente.

O autor, através de suas experiências e pesquisas que perfazem mais de 50 anos de trabalho, traz uma visão mais clara quanto a diferença entre o que chamo de xamanismo ancestral – com as devidas diferenças relativo à cada cultura visitada e conhecida, adaptado por ele para a atualidade com o nome de Core Xamanismo – e o que hoje é chamado de Neo Xamanismo, este segundo fazendo uso, nos trabalhos xamânicos tradicionais, de drogas alucinógenas e enteógenas, mesclado a cultos e rituais religiosos.

É importante mencionar aqui que, para os leigos, parece não haver diferença entre um e outro, entretanto o diferencial é que o Core Xamanismo não faz uso de drogas através de qualquer uma de suas técnicas e métodos por não haver necessidade. Existem muitas outras formas de ativarmos nosso cérebro para alcançar estados alterados de consciência sem o uso delas – falo também como experiência própria. Essa informação é importante para aqueles que tem receio de ingressar ou experienciar trabalhos xamânicos pela primeira vez, podendo ser alvo de pessoas mal preparadas e que não tem consciência da responsabilidade que significa trabalhar como um xamã, assim como participar de um atendimento individual ou um trabalho em grupo.

Ainda relativo ao antropólogo, tamanha foi sua responsabilidade ao visitar tribos remotas que não tinham mais contato com humanos ao longo de décadas que, para sua surpresa, reavivou na própria tribo o conhecimento esquecido ou perdido no tempo, a ponto de um antigo xamã acreditar que não haviam mais xamãs no mundo – vide documentário no final do artigo. Junto à criação de uma Fundação que abarca todos os trabalhos do casal até hoje, também reside um dos maiores acervos de artigos xamânicos conhecidos.

Foto: Xamã da Sibéria

O XAMÃ E O XAMANISMO

Os Xamãs — conhecidos no mundo “civilizado” como “curandeiros” — preservam um notável conjunto de antigas técnicas, que usam para obter e manter o bem-estar e a cura para eles próprios e para os membros das suas comunidades. Esses métodos xamânicos revelam-se de notável semelhança em todo o mundo, mesmo para povos cujas culturas são bastante diversas sob outros aspectos, povos que estão separados uns dos outros por oceanos e continentes há dezenas de milhares de anos.

Carecendo do nosso avançado nível de tecnologia médica, esses povos chamados primitivos tiveram excelente razão para se sentirem motivados a desenvolver capacidades não tecnológicas da mente humana, para a saúde e a cura. A uniformidade básica dos métodos xamânicos sugere que, por meio de tentativas e erros, os povos chegam às mesmas conclusões.

O xamanismo é uma grande jornada mental e emocional, onde tanto o paciente como o curandeiro xamã ficam envolvidos. Através de sua heróica viagem e de seus esforços, o xamã ajuda seus pacientes a transcenderem a noção normal e comum que têm acerca da realidade, inclusive a noção de si próprios como doentes. Faz sentir aos seus pacientes que eles não estão emocional e espiritualmente sozinhos em suas lutas contra a doença e a morte. Faz com que eles partilhem de seus poderes especiais, convencendo-os, em profundo nível de consciência, de que há outro ser humano desejoso de oferecer seu próprio Eu para ajudá-los. A abnegação do xamã provoca no paciente um compromisso emotivo correspondente, um senso de obrigação de lutar ao lado do xamã para se salvar. Zelo e cura caminham juntos.

Hoje, estamos descobrindo que mesmo os quase milagres da moderna medicina ocidental nem sempre são próprios para resolver completamente todos os problemas dos doentes, ou dos que desejam evitar doenças. Cada vez mais, os profissionais da saúde, e seus pacientes, estão procurando métodos de cura suplementares, e muita gente sadia também se empenha em experimentos pessoais para descobrir abordagens alternativas que sejam viáveis na busca do bem-estar.

Muitas vezes, nesses experimentos, surgem dificuldades para o leigo, e mesmo para o profissional da saúde, no que tange a distinguir o espúrio do efetivo. Os antigos métodos do xamanismo, ao contrário, já foram testados pelo tempo. De fato, eles vem sendo testados há um tempo imensuravelmente maior, por exemplo, que a psicanálise e inúmeras outras técnicas psicoterapêuticas (…) Fundamentalmente, o conhecimento xamânico só pode ser adquirido através da experiência individual. Contudo, será necessário que se aprenda os métodos a fim de utilizá-los. E eles podem ser aprendidos de diversas maneiras.

Por exemplo, entre os Conibo do Alto Amazonas, “aprender com as árvores” é considerado um aprendizado superior ao que se tem por intermédio de um xamã. Entre os aborígenes da Sibéria, a experiência morte/renascimento era, com freqüência, a principal fonte do conhecimento xamânico. Em certas culturas pré-letradas, há pessoas que respondem espontaneamente ao “chamado” do xamanismo, sem nenhum treinamento formal, enquanto outras treinam sob orientação de um xamã prático, em qualquer outro lugar, por um dia ou até por cinco anos ou mais.

Na cultura ocidental, a maioria das pessoas jamais chegará a conhecer um xamã, muito menos será treinada por algum deles. Ainda assim, como a nossa cultura é letrada, não é necessário que se esteja numa situação de aprendizado para aprender. Uma orientação escrita pode fornecer a informação metodológica essencial. Embora de início possa parecer embaraçoso aprender técnicas xamânicas através de um livro, persista. Sua experiência xamânica provará seu valor. Como em qualquer outro campo de aprendizado, claro que considera-se mais importante aprender diretamente com um profissional. Os que desejarem ter essa experiência podem participar de centros de treinamento especializados.

No xamanismo, a manutenção do poder pessoal é fundamental para o bem-estar. Este livro apresentará alguns dos métodos xamânicos para restabelecer e manter esse poder, e, através do seu uso, ajudar outros que estejam fracos, doentes ou feridos. As técnicas são simples e eficazes. Seu uso não exige “crença” nem mudança nas noções que se tem sobre a realidade no estado comum de consciência. Na verdade, o sistema nem sempre requer mudança na mente inconsciente, porque ele apenas desperta o que já existia ali. Contudo, embora as técnicas básicas do xamanismo sejam simples e relativamente fáceis de aprender, a prática efetiva do xamanismo exige autodisciplina e dedicação.

Ao se envolver com prática xamânica, a pessoa move-se entre o que chamo de um Estado Comum de Consciência (ECC) e um Estado Xamânico de Consciência (EXC). Esses estados de consciência constituem as chaves da compreensão de como, por exemplo, Carlos Castañeda pode falar de uma “realidade comum” e de uma “realidade incomum”. A diferença entre esses estados de consciência pode ser exemplificada, talvez, por meio de animais.

Dragões, grifos e outros animais que consideraríamos “míticos” quando estamos em ECC, são “reais” quando estamos em EXC. A idéia de que há animais “míticos” é válida e útil interpretação na vida ECC, mas supérflua e irrelevante em experiências EXC. Pode-se dizer que “fantasia” é uma palavra aplicada por uma pessoa em ECC ao que está sendo experimentado em EXC. Em contrapartida, uma pessoa em EXC pode perceber as experiências em ECC como ilusórias, em termos de EXC. Ambas estarão certas, conforme o estado de consciência de cada uma.

O xamã tem uma vantagem: é capaz de mover-se entre estados de consciência à vontade. Pode entrar no ECC de alguém que não seja xamã e concordar honestamente com ele, sobre a natureza da realidade vista a partir daquela perspectiva. Então, o xamã pode voltar ao EXC e obter uma informação direta do testemunho de outras pessoas, que relataram suas experiências quando naquele estado.

A observação a partir dos próprios sentidos é a base para uma interpretação empírica da realidade. E ainda não existe ninguém, mesmo nas ciências da realidade comum, que tenha provado, incontestavelmente, que existe apenas um estado de consciência válido para observações diretas. O mito do EXC é a realidade comum, e o mito do ECC é a realidade incomum. Fazer um julgamento imparcial da validade das experiências em estados contrastantes de consciência é algo extremamente difícil.

Para compreender a arraigada hostilidade emocional com que foram recebidos os trabalhos de Castañeda, em alguns lugares é preciso ter em mente que esse tipo de preconceito aparece com frequência. Trata-se do etnocentrismo entre as culturas. Nesse caso, todavia, a questão fundamental não é a pouca experiência cultural da pessoa, mas a falta de experiência consciente. As pessoas mais preconceituosas a propósito de um conceito da realidade não comum são as que jamais a experimentaram. Isso pode ser chamado cognicentrismo, análogo, na percepção, ao etnocentrismo.

Um passo para a solução desse problema poderia ser o aumento do número de pessoas a se tornarem xamãs, que poderiam passar, por si mesmas, e em seus próprios termos, pelas experiências em EXC. Esses xamãs poderiam transmitir uma compreensão da realidade incomum, tal como têm feito os xamãs desde tempos imemoriais em suas culturas, aos que nela jamais tivessem entrado. Isso equivaleria ao papel do antropólogo que, tomando a si a observação participante em outras culturas que não a própria, está, conseqüentemente, habilitado para passar a compreensão dessa cultura a pessoas que, de outra maneira, poderiam considerá-la alheia, incompreensível e inferior.

Os antropólogos ensinam os outros a tentar evitar as armadilhas do etnocentrismo, aprendendo a compreender a cultura em termos de suas próprias suposições sobre a realidade. Os xamãs ocidentais podem prestar serviço idêntico em relação ao cognicentrismo. A lição do antropólogo é chamada de relativismo cultural. O que os xamãs ocidentais podem tentar criar, até certo ponto, é um relativismo cognitivo. Mais tarde, quando se obtiver um conhecimento empírico da experiência, poderá haver respeito por suas próprias suposições. Então, talvez tenha chegado o momento de fazer uma análise imparcial da experiência em EXC, cientificamente, em termos de ECC.

Pode-se argumentar que nós, seres humanos, passamos a maior parte da nossa vida, quando acordados em ECC, porque a seleção natural entende que assim deva ser, considerando que essa é a realidade real, e os outros estados de consciência, que não o do sono, são aberrações que interferem na nossa sobrevivência. Em outras palavras, tal argumento pode ser aceito, nós percebemos a realidade da forma como costumamos percebê-la porque esse é sempre o melhor modo, em termos de sobrevivência.

Todavia, avanços recentes em neuroquímica mostram que o cérebro humano leva consigo suas próprias drogas para alterar a consciência, incluindo alucinógenos tais como o dimetiltriptamina (DMT). Em termos de seleção natural, parece pouco provável que esses alteradores da consciência viessem a estar presentes, a menos que a sua capacidade de alterar o estado da consciência trouxesse alguma vantagem para a sobrevivência. Ao que parece, a própria Natureza resolveu que um estado alterado de consciência é, às vezes, superior ao estado comum.

No Ocidente, estamos apenas começando a apreciar o importante impacto que o estado da mente pode ter sobre aquilo que antes foi, com excessiva frequência, tomado como questões de propriedade puramente “física”. Quando, numa emergência, um xamã aborígene australiano ou um lama tibetano empenha-se numa “viagem rápida” — um transe da técnica em EXC para percorrer longas distâncias a grande velocidade — isso é, claramente, uma técnica de sobrevivência que, por definição, não é possível em ECC.

Da mesma maneira, estamos agora aprendendo que muitos dos nossos atletas mais bem-sucedidos entram em estado alterado de consciência quando estão tendo seus melhores desempenhos. Levando tudo isso em conta, parece impróprio argumentar que apenas determinado estado de consciência é superior em todas as circunstâncias. De há muito o xamã sabe que essa suposição não somente é falsa, mas também é perigosa para a saúde e o bem-estar. Usando milênios de conhecimentos acumulados, bem como suas experiências diretas, o xamã sabe quando a mudança de um estado de consciência é aconselhável ou mesmo necessária.

Em EXC, o xamã não só passa por experiências que são impossíveis em ECC, mas também as realiza. Mesmo que fosse provado que todas as experiências xamânicas em EXC estão apenas na mente do xamã, isso não faria esse domínio menos real para ele. Na verdade, tal conclusão significaria que as experiências e as realizações xamânicas não são impossíveis, seja qual for o seu sentido.

(…) Do ponto de vista do xamanismo, o poder pessoal é básico para a saúde, em todas as condições da vida de uma pessoa (…) E a que ponto podemos dizer que serão xamãs? Esse estado só lhes poderá ser conferido por aqueles aos quais tentarem prestar ajuda em assuntos de poder e de cura. Em outras palavras, é o sucesso obtido no trabalho xamânico que determina se as pessoas chegaram ou não a se tornar xamãs. Elas terão oportunidade de descobrir que, sem usar nenhum tipo de droga, podem alterar seu estado de consciência para formas xamânicas clássicas, e entrar na realidade incomum do xamanismo.

Em EXC, podem tornar-se videntes e fazer, pessoalmente, a famosa viagem xamânica, para adquirirem, em primeira mão, o conhecimento do universo oculto. Também podem descobrir a possibilidade de se beneficiar dessas viagens xamânicas, em termos de cura e de saúde, usando antigos métodos que fazem o prognóstico de ambas, e que vão além da psicologia, da medicina e da espiritualidade do Ocidente. Além disso, podem aprender métodos sem viagens, através dos quais a pessoa mantém o poder pessoal e o melhora.

Não é difícil que os ocidentais, ao se aproximarem pela primeira vez dos exercícios xamânicos, sintam certa perturbação. Ainda assim, em cada um dos casos que conheço, as ansiedades foram logo substituídas por sensações de descoberta, por excitação positiva e por confiança em si mesmo.(…)

Esta é, essencialmente, uma apresentação fenomenológica. Não estou tentando explicar concepções e práticas xamânicas cm termos de psicanálise, ou de qualquer outro sistema ocidental contemporâneo de teoria causai. A causalidade envolvida no xamanismo e na cura xamânica é, realmente, uma questão muito interessante, que merece detalhada pesquisa; entretanto, uma pesquisa científica orientada para a causalidade não é essencial para o ensino da prática xamânica, que aqui se trata do objetivo maior.

Em outras palavras, as indagações ocidentais sobre o porquê do funcionamento do xamanismo não são necessárias para que se façam experiências e se empreguem os métodos com resultado. Tentem conter qualquer pré-julgamento crítico quando começarem a praticar métodos xamânicos. Gozem, simplesmente, as aventuras de uma abordagem xamânica, absorvam e pratiquem o que leram e, então, vejam para onde as suas investigações os levam. Durante dias, semanas, e talvez anos depois de terem usado esses métodos, as pessoas terão muito tempo para refletir sobre a sua significação a partir de um ponto de vista ocidental.

A forma mais eficaz de aprender o sistema xamânico é usar os mesmos conceitos básicos que ele usa. Por exemplo, falo de “espíritos” porque é dessa maneira que os xamãs falam, dentro do seu sistema. Para praticar o xamanismo é desnecessário, e mesmo perturbador, estar preocupado com a obtenção de uma compreensão científica daquilo que os “espíritos” podem realmente representar e com o porquê da atividade do xamanismo (…)

A principal meta aqui é fornecer um manual introdutório de metodologia xamânica para a saúde e a cura. (…) os elementos essenciais básicos aqui estão, para quem quer que tenha a capacidade de começar a se tornar xamã e esteja predisposto a fazê-lo. O conhecimento do xamanismo, como outro conhecimento qualquer, pode ser usado para diferentes fins, dependendo da maneira pela qual ele é empregado. O caminho que lhes ofereço é o do curandeiro, não o do feiticeiro, e os métodos oferecidos têm por objetivo atingir bem-estar e saúde, bem como ajudar aos outros.

(…) Não aceitem, porém, só o que eu digo: o conhecimento xamânico verdadeiramente importante é o que se experimenta, e não pode ser obtido a partir de mim ou de outro xamã. O xamanismo, afinal, é, basicamente, uma estratégia de aprendizado pessoal e de ação segundo esse aprendizado. Eu lhes ofereço uma parte dessa estratégia, e os acolho com prazer nessa antiga aventura xamânica.

Foto: Xamã da Amazônia

XAMANISMO, MEDICINA E TERAPÊUTICA INTEGRADA

Consta que Albert Schweitzer disse certa vez; “(…) Cada paciente leva seu próprio médico dentro de si. Esse paciente nos procura sem saber dessa verdade. O melhor que fazemos é dar ao médico que reside dentro de cada paciente a chance de trabalhar.”

Entre os profissionais da arte de curar, talvez apenas o xamã tenha qualificação para dar “ao médico que reside dentro de cada paciente a chance de trabalhar”. Embora a falta de moderna tecnologia médica possa ter forçado os povos primitivos a desenvolver seus poderes xamânicos latentes, mesmo hoje se está reconhecendo cada vez mais que a saúde e a cura “física”, às vezes, exigem mais do que um tratamento técnico. Há um novo ponto de vista quanto ao fato de que a saúde “física” e a “mental” estão em íntima conexão, e de que os fatores emocionais podem ter um papel importante no início, no decorrer da cura e na cura de uma doença.

O recente acúmulo de dados experimentais que comprovam que os profissionais iogues e de casos regenerativos podem manipular processos físicos básicos, antes considerados pela medicina ocidental incontroláveis pela mente, é apenas uma parte do novo reconhecimento da importância que a prática espiritual e mental tem para a saúde. Particularmente estimulante e implicitamente a favor da abordagem xamânica da saúde e da cura é a nova evidência médica de que, em estado alterado de consciência, a mente pode pôr em ação o sistema imunológico do corpo, através do hipotálamo. É possível que, com o tempo, a ciência venha a descobrir que a mente inconsciente da pessoa que é tratada pelo xamã, sob a influência do som lento, está sendo “programada” pelo ritual a ativar o sistema imunológico do corpo contra a doença.

O campo da medicina holística, que vai desabrochando cada vez mais, mostra uma extraordinária quantidade de experimentos que se dirigem à reinvenção de várias técnicas de há muito praticadas no xamanismo, tais como a vidência, o estado alterado de consciência, aspectos da psicanálise, a hipnoterapia, a meditação, a atitude positiva, a redução do esforço e a expressão mental e emocional da vontade para a obtenção da saúde e da cura. Em certo sentido, o xamanismo está sendo reinventado no Ocidente, precisamente porque está sendo necessário.

Em conexão com a crescente compreensão das impropriedades do tratamento puramente técnico das doenças, existe a insatisfação diante da impessoalidade da medicina comercial e institucional moderna. No mundo primitivo, quase sempre os xamãs são membros da mesma grande família do paciente e têm um compromisso emocional com o bem-estar pessoal do enfermo, compromisso que nada tem de parecido com a visita de quinze minutos ao consultório do médico da sociedade contemporânea.

O xamã pode trabalhar a noite inteira, ou várias noites, pela recuperação de um só paciente, em dupla aliança que entrelaça o inconsciente de ambos numa heróica associação contra a doença e a morte. A aliança, contudo, vai além, porque se trata de uma aliança contra os poderes ocultos da Natureza, invisíveis à luz do dia, quando a intromissão da vida cotidiana confunde a consciência.

Em lugar disso, o par formado pelo xamã e pelo paciente aventura-se pela claridade das trevas, onde, sem ser interrompido pelos estímulos exteriores e superficiais, o xamã as forças ocultas encerradas nas profundezas do inconsciente e usa ou combate essas forças para o bem-estar e a sobrevivência do paciente. Alguns xamãs, como é natural, não são membros da família dos enfermos e, assim sendo, aceitam pagamento por seus trabalhos, em algumas sociedades. Entretanto, como ocorre entre os Tsimshian Gitksan, na costa noroeste da América do Norte, não raro o xamã devolve esse pagamento, se o doente morre.

As realizações da medicina científica e tecnológica do Ocidente são, sem dúvida, miraculosas, por si mesmas. Espero, entretanto, que o conhecimento e os métodos xamânicos venham a ser respeitados pelos ocidentais, como os xamãs respeitam a medicina tecnológica do Ocidente. Com o respeito mútuo, ambas as estratégias podem ajudar na efetivação da abordagem holística da cura e da saúde que tantos povos estão buscando. Para fazer uso do xamanismo, não precisamos saber, em termos científicos, por que ele funciona, assim como não precisamos saber por que a acupuntura funciona para tirarmos proveito dela.

Não há conflito entre a prática xamânica e o tratamento médico moderno. Todos os aborígenes xamãs da América do Sul e do Norte que tenho interrogado sobre esse assunto são unânimes em dizer que não há nenhuma competição. Os xamãs Jivaro estão plenamente dispostos a deixar que os seus pacientes visitem um médico missionário, por exemplo. Na verdade, eles encorajam seus pacientes a que busquem todo tratamento tecnológico que puderem obter. Antes de mais nada, o xamã deseja ver o paciente bem. Qualquer espécie de tratamento ou de medicação tecnológica que contribua para dar forças ao paciente, que ajude a combater qualquer tipo de doença, é bem-vindo.

Um exemplo comum da combinação de apoio mútuo entre o xamanismo e a medicina tecnológica ocidental é o conhecido trabalho do Dr. Carl Simonton e de Stephanie Matthews-Simonton, referente ao tratamento de pacientes com câncer. Embora os Simonton não tenham consciência de usarem métodos xamânicos, algumas de suas técnicas de apoio à quimioterapia são incrivelmente semelhantes às dos xamãs. Segundo se revela, os pacientes dos Simonton, às vezes, conseguem surpreendentemente o alívio da dor e a redução das áreas afetadas pelo câncer.

Como parte do tratamento, os pacientes descansam num aposento tranqüilo e se visualizam fazendo uma viagem até encontrarem o “guia interior”, que é uma pessoa ou um animal. O paciente, então, pede auxílio ao guia, para ficar bom. A semelhança com a viagem xamânica e a recuperação de um animal de poder, e seu uso xamânico, é, obviamente, notável. Além disso, os Simonton, sem sugerir seu conteúdo, fazem com que os pacientes visualizem e desenhem o câncer deles. Os pacientes, espontaneamente, desenham cobras e outras criaturas espantosamente semelhantes ás que os xamãs vêem como energias intrusas no corpo dos pacientes. Os Simonton estimulam os seus pacientes, então, a visualizar o câncer como “criatura de dor” e a se livrar dele.

Foto: Xamã do Nepal

A semelhança com o xamanismo, entretanto, não cessa aí. Os Simonton descobriram que poderiam treinar os pacientes a visualizar o envio das células brancas de seu sangue para ingerir as células cancerosas e expeli-las – semelhante à cura de câncer que ocorreu na época com Louise Hay (observação da blogueira) – quase da mesma forma que o xamã procede ao sugar e remover do corpo do paciente as energias intrusas de poder nocivo. Uma das principais diferenças está no fato de que os pacientes dos Simonton agem como seus próprios curadores, algo que é difícil mesmo para os melhores xamãs (…)

Um dia, e espero que esse dia não demore a vir, uma versão moderna do xamã trabalhará lado a lado com os médicos ocidentais ortodoxos. Na verdade, isso já está acontecendo nos lugares onde existem xamãs aborígenes, como em algumas reservas indígenas da América do Norte e em algumas partes da Austrália. Igualmente emocionante é a perspectiva de médicos serem treinados nos métodos xamânicos de cura e de manutenção da saúde, para que eles possam combinar as duas abordagens em sua prática. Sinto-me feliz por notar que um pequeno número de médicos mais jovens já participou do meu treinamento nos centros que para isso mantenho, e parecem entusiasmados com o que aprenderam. Só o tempo dirá qual será o seu sucesso no uso dos princípios xamânicos em seu trabalho.

Quaisquer que sejam seus interesses e expectativas em relação à arte do xamã, uma questão básica existe: Daqui, para onde você vai? (…) Ser xamã incorre em que se tente seriamente dar auxílio às pessoas que têm problemas de poder e de saúde. Talvez, você não se sinta bem ao assumir essa responsabilidade. Mesmo nas sociedades primitivas, a maioria das pessoas se sente desse jeito. Ainda assim, todavia, você pode se ajudar por meio do uso diário e regular dos métodos que aprendeu. É possível trabalhar sozinho, mesmo sem um tamborileiro, usando uma mídia que tenha gravado o toque xamânico do tambor. Dessa maneira, temos a tecnologia do século XX combinada com o xamanismo!

Para os leitores que desejam se tomar xamãs profissionais, devo salientar que há mais a ser experimentado e aprendido do que o que foi tratado nas páginas precedentes, tal como: caminhar por regiões agrestes, buscar a “visão”, a experiência xamânica da morte e da ressurreição, a jornada órfica, o xamanismo e a vida após a morte, as viagens ao Mundo Profundo. Mas, por enquanto, o mais importante para você é praticar regularmente o que aprendeu. Pode ser assistido por um amigo ou parente que esteja disposto a trabalhar com você como parceiro, participando em centros de treinamento xamânico e criando um círculo de pessoas com tendências ao xamanismo, que se encontrem sempre para se ajudarem mutuamente e também para auxiliar os outros.

Conforme mencionei, você pode trabalhar simplesmente para se ajudar, mas talvez ache que isso não é suficiente e queira ajudar os outros, através do xamanismo. Os maiores obstáculos para tal serão culturais e sociais, e não xamânicos, pois vivemos numa civilização que perseguiu e destruiu os que possuíam o antigo conhecimento. Você não será queimado em fogueira, mas também não receberá o Prêmio Nobel de Medicina.

Entre os Koryak, na Sibéria, havia uma útil distinção entre o xamanismo familiar e o xamanismo profissional. O xamanismo familiar era o auxílio aos parentes mais próximos, que prestavam as pessoas que eram menos avançadas ou menos poderosas no que se referia ao conhecimento xamânico. O xamanismo profissional era praticado pelos mais avançados e mais poderosos e incluía o tratamento de todo e qualquer cliente. Se você deseja ajudar os outros através de métodos xamânicos, sugiro que siga o modelo do xamanismo familiar, trabalhando para ajudar amigos íntimos e membros da família que se mostrem predispostos. E lembre-se: trabalhe para suplementar o tratamento médico ocidental ortodoxo, não para competir com ele. O objetivos não é ser purista, mas ajudar os outros a obter saúde, felicidade e harmonia com a Natureza, de todas as formas viáveis.

Enfim, no xamanismo não há distinção entre ajudar os outros e ajudar a si próprio. Ao ajudar os outros xamanicamente, a pessoa se torna mais poderosa, no que se refere a estar mais plenamente realizada e jubilosa. O xamanismo vai muito além de uma transcendência essencialmente egoísta da realidade comum. Trata-se de uma transcendência para um propósito mais amplo, o auxílio à humanidade. O iluminismo dessa arte é a capacidade de aclarar o que os outros vêem como trevas, portanto de ver e de viajar em favor de uma humanidade que está perigosamente perto de perder o vínculo espiritual com todos os seus parentes, ou seja, as plantas e os animais desta boa terra.

Foto: Xamãs Inca – imagem do documentário

DOCUMENTÁRIO

(…) É na prática dos métodos xamânicos que encontramos a trilha que ninguém pode encontrar para nós. Tal como um espírito disse a um xamã Samoiedo siberiano: “Ao praticar o xamanismo, você encontrará seu caminho, sozinho.”

Fazendo jus ao texto de Michael Harner, sugiro o documentário sobre o trabalho e a vida do autor, baseado na obra The Way of The Shaman – disponível para baixar na internet – que percorreu o mundo e trouxe uma nova visão do xamanismo aplicado à atualidade.

Este documentário conta a história de Michael e Sandra Harner na história e no desenvolvimento do xamanismo central, as práticas universais e comuns dos xamãs em todo o mundo. O filme leva-nos através das primeiras expedições de Michael como um jovem estudante de antropologia às selvas da Amazônia equatoriana e peruana, e sua vida alterando insights sobre o poder xamânico.

Os Harners estabeleceram a Fundação para Estudos Xamânicos, objetivando preservar, estudar e ensinar o xamanismo em benefício de todos, levando a um renascimento mundial do xamanismo através dos primeiros programas internacionais de treinamento da Fundação.

O filme traz conceitos muito básicos sobre o xamanismo, mas um olhar informativo e inspirador para as pessoas por trás da evolução de uma nova metodologia, chamada por ele de Core Xamanism, que honra e constrói métodos baseados no antigo conhecimento dos xamãs do mundo, entretanto sem o uso de qualquer erva ou planta alucinógena ou enteógena, mas sim fazendo uso dos diversos tipos e toques de tambor para se atingir os estados alterados ou xamânicos de consciência.

Através desses métodos, milhares de estudantes descobriram recursos espirituais escondidos, transformaram suas vidas e a si, e aprenderam como ajudar os outros, assim como nossa preciosa Terra.

Fonte complementar do livro: O Caminho do Xamã (The Way of the Shaman) – Michael Harner

Leia também: Tambor: A Cura e a Sacralidade Ancestral / Chocalho: Instrumento de Purificação / Honrando a Anciã que habita em nós

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