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Santa Sara Kali: Honrando a Ancestralidade Feminina, a Alma Cigana

Neste 24 de maio, comemora-se o Dia de Santa Sara, a padroeira dos ciganos e, no sincretismo católico há uma alusão à Nossa Senhora Aparecida. Mais do que apenas um dia no calendário, a intenção aqui é relembrarmos das nossas raízes ancestrais, da intrínseca conexão com o feminino sagrado que habita em nós porque Sara também é a representação da vida, da maga, da mãe, do útero, do óvulo e tudo que é feminino: os saberes antigos, as medicinas, as magias para o equilíbrio do feminino e todos os seus ciclos,  o fogo sagrado da Vida e a dança da Criação. 

Fazendo jus à energia especial desse dia, honrando os saberes antigos desse povo cujas raízes estão na origem de muitas de nossas árvores ancestrais, uma oração à alma cigana, zingara, gitana e livre que habita em toda mulher. Com amor, alegria e gratidão, dancemos a dança da Vida que sempre convida a celebrá-la! 😉

“Com suas saias rodadas, de ramagens coloridas de vermelho ao amarelo, com suas pulseiras e brincos de ouro, seus Talismãs de meias-luas de prata, seus berloques de marfim de lápis-lazúli, correntes de moedas douradas no pescoço, tranças com fitas, lenços e medalhões, as ciganas caminharam por todo o Sind. Fugiam da expansão dos árabes da Índia. Os homens levavam os ídolos, os cantos védicos, os cães e as cabras. Chegaram ao Punjab, outra parte da Índia. Lá, de Chandigarh fugiram para o Afeganistão. Cansados e famintos, armaram suas tendas, acenderam suas fogueiras nas terras do Afeganistão, mas mal sabiam que lá também não poderiam ficar. No ano seguinte estavam na Armênia, depois por toda a Ásia Menor afora, entrando na Europa pela Grécia.

Hoje, espalhados por quase todo o mundo, estes descendentes dos hindus – agora chamados ciganos – não conhecem estas histórias e suas tradições. Desde a peregrinação no ano 800, lá do velho Sind até agora, esta gente conheceu quase toda a Europa. Lembram- se, em suas conversas à noite, entre canções dolentes, de que seus bisavós falavam dos tempos da Valáquia, da Moldávia e da querida Hungria, onde chegaram em 1417. Até hoje cantam em seus bródios cantigas húngaras. Relembram as terras germânicas onde chegaram em 1418 e das farras nas feiras em Paris lá pelos idos de 1419.

Outros, dando risadas, falam de seus “maiores” que viveram na Catalunha, terra por demais amada pelos zíngaros. Lá vivem milhares deles ainda hoje. Lá cuidam e amam a Santa Virgem de Triana, conhecida como La Gitana. Outros, bebendo sifrit, uma mistura de vinho, ervas e cascas de fruta, falam dos teatros que faziam em Évora, em Portugal, seus tetravôs. Sim, pois em Portugal os ciganos foram muito notados e até eternizados por Gil Vicente na Peça “Farsa dos Ciganos”, quando quatro gitanos conversam em mau castelhano com RI Rei D. João III.

Para o Brasil, eles vieram nos tempos de nossa colonização. Turbulentos para uns, energéticos para outros, suspicazes, alegres, misteriosos, esses descendentes dos hindus do Punjab e de Sind foram até citados nas “Confissões da Bahia” em 1593. Viveram em Pernambuco, em Salvador, no Rio colonial e agora, alguns mais velhos, lembram dos tempos em que residiam no Rio, na Praça Tiradentes, onde liam a sorte e vendiam cavalos.

Agora, vivendo em todas as partes, continuam a venerar seus santos católicos, seus ícones: Sara, cuja igreja em Chartres é a verdadeira Catedral dos Ciganos, a praguejar em calão e a rir sua risada velha como o mundo. Riso que ainda tem muito das peregrinações ao rio Ganges ou à cidade santa de Varanasi, riso matreiro de quem dançou as danças de Orissa, fez procissões em Darjeenlin e em Tripura, de quem peregrinou por Paris nas feiras de compras de cavalos e pelas areias do deserto.

Riso de olhos debochados de quem já viu de tudo e que traz em si o sonho de grandeza, de fortuna, de carroças cheias de ouro e jóias e muito, mas muito da miséria humana: de suas lutas, medos, fantasias e crendices. Riso de caldeireiro, soldador, tocador de baralho, rezador, turbulento; riso que tem em si o segredo de um povo nômade e antigo, mistura de árias e hindus, gregos, catalães, portugueses, riso que só o têm esses filhos do Sol e da Lua, irmãos e filhos do vento, os eternos, sábios e misteriosos ciganos.”

ORAÇÃO À CIGANA 

És uma linda flor que desabrocha ao amanhecer. És um espírito de amor.

És a luz que clareia nossas mentes para que possamos dar um conselho na hora certa.

És o espírito que nos dá força para superarmos os nossos obstáculos e transformar nossos defeitos.

És a estrela brilhante que ilumina nossas noites e nossas vidas neste planeta.

És uma irmã de alma que à noite vigia nossos sonhos, nos inspirando a seguir no caminho retilíneo do nosso propósito divino.

És uma guardiã da Lei Divina que com teu leque e tua adaga da justiça afasta e impede a aproximação de consciências maléficas.

Cigana, com tuas fitas e saias coloridas estas sempre transmitindo a força do arco-íris em meio à nebulosidade, o movimento da roda da vida e do destino.

Sempre que um aflito me invocar que eu possa aprender contigo, transmitindo-lhe a energia da paz, da harmonia, da compaixão e da consolação.

Que ao olhar a chama de uma vela, honrando o fogo sagrado que a ti está vinculado, possa sentir tua presença e o perfume de flores que deixas no ar.

Que ao tocar um cristal, possa sentir tua energia positiva, tua sabedoria e aprender com teus ensinamentos e tuas magias para o Bem de todos.

Que ao sentir o aroma das rosas, possa lembrar que sempre estas nos confortando e procurando nos alertar a seguir o caminho da Lei Divina e do Amor.

Cigana, cobre-nos com teus lenços coloridos, escondendo-nos dos invejosos e mostrando a eles que o caminho não é esse.

Cobre-nos com a luz dourada do verdadeiro ouro, aquele conquistado por meio do trabalho justo, da tarefa digna e do caráter inabalável perante o Bem que fazemos a nós e aos outros. 

Cigana encantada, que nessa exata hora possamos sentir e partilhar da dança da alegria que tu trazes, sentir a felicidade de nos reunirmos à essa família espiritual da qual fazemos parte e que só união, amor, felicidade, prosperidade e sabedoria tem a trazer para o nosso caminho.

Com teu encanto e tuas magias de luz encanta coisas boas e felizes para que os nossos caminhos estejam abertos e nosso destino esteja apenas nas mãos da nossa consciência de Luz.

Desencanta as perturbações que existam nos lares e que sejam a ti confiadas.

Cigana, que possamos aprender com as tuas curas ancestrais e medicinas sagradas, a fim de auxiliar aqueles que estejam doentes do espírito, da alma e da matéria.

Pelo poder do Pai Sol, com a magia da Lua e pelo poder da Mãe Terra, nós te agradecemos sempre e só pedimos aquilo que tivermos merecimento de receber no tempo perfeito, através da linguagem harmoniosa do universo.

Por Santa Sara, a padroeira dos ciganos, e por todos os ancestrais ciganos que viveram nesta Terra honrando seus princípios sagrados, permanecemos nesta corrente de fé para fortalecer-nos a cada noite, a cada dia.

Que Assim Seja! Bendito, abençoado, realizado e agradecido! 

Namaste, Optchá, Gratidão! ❤ 

Fonte complementar do texto introdutório: A Astrologia dos Ciganos e sua Magia

Leia mais: É Hora de voltar para o Templo Interior: O Templo do Coração!

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